Departamento de Física · UDESC
Seminário · 2026

Ray tracing em estrelas relativísticas

Da geometria
à observação

Como a curvatura do espaço-tempo decide a imagem, o espectro e a curva de luz que um telescópio de raios X recebe de uma estrela de nêutrons.

Rafael C. R. de Lima

Departamento de Física·UDESC/CCT·Joinville

ψ(b) = ∫ du / √(b−2 − u²(1 − RSu))a luz que deixa a superfície

Roteiro

Quatro partes, um caminho

I

A estrela por dentro

O que segura uma estrela de nêutrons: a equação TOV, a equação de estado e a curva massa–raio.

II

Ray tracing relativístico

Geodésicas nulas em Schwarzschild: o desvio da luz, o redshift e os atrasos — e como seguir os raios de trás para a frente, do telescópio até a superfície.

III

Pulsares e estrelas de nêutrons

Os laboratórios: pulsares e magnetares, manchas quentes, rotação, atmosferas — e o que o NICER já mediu.

IV

Resultados recentes

Meus trabalhos: curvas de luz de magnetares, um magnetar massivo de campo baixo, colunas de acreção — e testes de teorias alternativas da gravidade.

A premissa

Tudo o que sabemos chega em fótons

Estrelas compactas são laboratórios naturais de gravitação em campo forte — mas só as conhecemos pelos fótons que saíram delas e atravessaram um espaço-tempo curvo.

métrica→geodésicas nulas→imagem · espectro · curva de luz→telescópio→M, R, campo, gravidade

O problema direto

Dada a estrela e a métrica, prever o que se observa. É o ray tracing.

O problema inverso

Dado o que se observa, inferir massa, raio, geometria das manchas e campo magnético.

O teste

Se a métrica não for a de Schwarzschild, as curvas de luz mudam: a observação testa a gravidade.

I

Parte um

A estrela
por dentro

Antes de seguir a luz, a fonte: o que segura mais de uma massa solar em 12 km — a pressão da matéria mais densa que conhecemos, contra a gravidade da relatividade geral.

anatomiaequilíbrio TOVequação de estadomassa e raio

Anatomia · uma solução da TOV com a equação de estado SLy

Da crosta ao núcleo desconhecido

em escala · o mesmo eixo de r em cima e embaixo
  • Atmosfera e oceano: de centímetros a metros de H, He ou C — de onde sai a luz da Parte II.
  • Crosta externa: uma rede de núcleos cada vez mais ricos em nêutrons, num mar de elétrons, até 4×10¹¹ g/cm³, quando os nêutrons começam a escapar dos núcleos.
  • Crosta interna: núcleos e nêutrons livres, superfluidos; na base, a “pasta nuclear”. Até ~ρ₀/2.
  • Núcleo externo: nêutrons, com alguns prótons, elétrons e múons, até ~2ρ₀.
  • Núcleo interno: até ~6ρ₀. Híperons? Quarks livres? Quem decide é a equação de estado.

ρ₀ = 2,7×10¹⁴ g/cm³ é a densidade dentro de um núcleo atômico. Perfil da TOV com a SLy (Douchin & Haensel 2001, nos polítropos de Read et al. 2009).

Tolman · Oppenheimer & Volkoff · 1939

Equilíbrio hidrostático na relatividade geral

dPdr = −Gmρr²Newton · dm/dr = 4πr²ρ
dPdr = −Gmρr² (1 + Pρc²) (1 + 4πr³Pmc²) (1 − 2Gmrc²)−1 a equação TOV · ρc² = ε, a densidade de energia

a pressão tem inércia

Pressão é energia, e energia resiste a ser acelerada como massa. No centro desta estrela: ×1,15

a pressão gravita

A pressão também é fonte de gravidade e soma-se à massa. No centro: ×1,46

o espaço se curva

As distâncias radiais se esticam, e o fator cresce para fora. Na superfície: ×1,55

Mais pressão, mais gravidade: apertar mais não basta, e surge uma massa máxima — que Newton não tem.

A equação de estado

Quanto a matéria resiste a ser apertada

Read et al. 2009
  • A equação de estado dá a pressão em função da densidade, P(ρ): é o que falta para a TOV fechar.
  • Até ~ρ₀ a física nuclear de laboratório vincula a curva; acima, cada modelo extrapola: forças de dois e três núcleons (WFF1, APR4), Skyrme (SLy), Brueckner–Hartree–Fock relativístico (ENG, MPA1), campo médio relativístico (MS1; H4, com híperons).
  • Dura — mais pressão na mesma densidade — dá estrela maior e mais pesada; macia, menor e mais leve.
  • Limites: o som não corre mais que a luz, e pulsares de 2 M☉ eliminam as macias demais.

cs²/c² = ΓP/(ε + P). O ponto marca o centro da estrela de massa máxima; depois dele, a curva fica apagada. Os saltos vêm do ajuste por polítropos, que muda Γ em 1014,7 e 1015 g/cm³; perto do centro das estrelas mais pesadas, alguns ajustes passam de c.

Tolman–Oppenheimer–Volkoff · equação de estado

Da física nuclear à curva M–R

polítropos por partes · vínculos observacionaispasse o mouse sobre uma curva
dPdr = −G(ε + P)(m + 4πr³P/c²)c² r(r − 2Gm/c²)equilíbrio hidrostático relativístico (TOV)

Cada equação de estado P(ε) dá uma curva massa–raio e uma massa máxima. Medir massa e raio da mesma estrela escolhe entre elas.

As retas de compacidade constante antecipam a Parte II: abaixo de R = 1,76 RS a superfície inteira fica à vista; em 1,5 RS está a esfera de fótons.

Polítropos por partes de Read, Lackey, Owen & Friedman (2009); vínculos (68%): NICER — Riley et al. 2019, 2021; Miller et al. 2019; Choudhury et al. 2024; PSR J0348+0432 (Antoniadis et al. 2013); GW170817 (Abbott et al. 2018).

II

Parte dois

Ray tracing
relativístico

Perto de uma massa a luz não anda em linha reta: segue as geodésicas nulas da métrica. Ray tracing é seguir essas geodésicas de trás para a frente — do telescópio até a fonte.

geodésicas nulasdesvio da luzredshifta imagem de uma estrela compactaa receita
SMACS 0723 (JWST) · NASA, ESA, CSA, STScI · domínio público

25 de novembro de 1915

Einstein e suas equações de campo

Albert Einstein, 1921F. Schmutzer · domínio público
Albert Einstein1921
Gμν = 8πGc4 Tμνcurvatura = conteúdo de energia e momento
d²xμdλ² + Γμαβ dxαdλ dxβdλ = 0geodésica
ds² = gμν dxμdxνa métrica é o campo
“O espaço-tempo diz à matéria como se mover; a matéria diz ao espaço-tempo como se curvar.”
John A. Wheeler

Os testes clássicos

Sobral, 1919: a luz faz curva

Placa do eclipse de 1919ESO / Landessternwarte Heidelberg-Königstuhl / Dyson, Eddington & Davidson · CC BY 4.0
efeitoRG prevê
periélio de Mercúrio (1915)43″ / século
desvio da luz rasante ao Sol (1919)1,75″
desvio para o vermelho, Pound–Rebka (1959)2,5×10⁻¹⁵ em 22,5 m
atraso de Shapiro (1964)~200 μs
relógios do GPS+38 μs / dia

Expedição de Sobral (CE): 1,98 ± 0,12″. Príncipe: 1,61 ± 0,30″. O céu do Nordeste confirmou Einstein.

Sobral, 29 de maio de 1919 · a medida

Duas chapas, o mesmo céu

chapa simulada · escala real

Noite: as Híades fotografadas em julho, antes do amanhecer, com o mesmo telescópio — o Sol longe dali.

Eclipse: o mesmo campo em 29 de maio, com a Lua cobrindo o Sol. Cada estrela se afasta do Sol, na direção radial.

δ = 4GMc²b = 1,75″ R☉bo dobro da conta newtoniana

Na chapa inteira nada se mexe: 1″ é um décimo de pixel. Nas lupas, em escala real, como no micrômetro, a estrela pula uma fração da própria largura — e o centro de uma mancha se mede bem melhor que a largura dela.

A conta de Einstein · novembro de 1915

De onde vem o 1,75″

δ = 4GM☉c²b = 2rsbb: do centro do Sol à reta do raio que chega
[GMc²b] = (m³ kg⁻¹ s⁻²)(kg)(m² s⁻²)(m) = 1adimensional: o ângulo sai em radianos
b = R☉:  δ = 5,91 km6,96×10⁵ km = 8,49×10⁻⁶ rad4GM☉/c² = 5,91 km: o dobro do rs do Sol
1 rad = 180π × 3600″ ≈ 206 265″  →  δ ≈ 1,75″Newton, com a luz como partícula: a metade, 0,87″

1859 – 1915 · o periélio de Mercúrio

Mercúrio não fecha a órbita

avanço do periéliopor século
observado (relativo às estrelas)574″
outros planetas, por Newton531″
sobra sem explicação43″
Δφ = 6πGM☉c² a(1 − e²) = 0,104″ por órbitaRG · Einstein, novembro de 1915 · 415 órbitas por século → 43,0″

Le Verrier encontrou a sobra em 1859 e propôs um planeta escondido, Vulcano. Nunca foi achado. Einstein obteve os 43″ sem nenhum parâmetro ajustável.

“Por alguns dias, fiquei fora de mim de excitação alegre.”
Einstein a Ehrenfest, janeiro de 1916

Dezembro de 1915 · front russo

Schwarzschild e a primeira solução exata

Karl Schwarzschild
Karl Schwarzschild1873 – 1916
ds² = −(1 − rsr) c²dt² + dr²1 − rs/r + r²dΩ²rs = 2GM/c² · vale fora de qualquer corpo esférico sem rotação

1 rs

horizonte de eventos

1,5 rs

esfera de fótons

3 rs

ISCO: última órbita estável

2,95 km

rs do Sol (Terra: 8,9 mm)

Escreveu a Einstein em 22 de dezembro de 1915, servindo como artilheiro. Morreu em maio de 1916.

O que nos interessa da métrica

A curvatura faz três coisas com um fóton

1 · Encurva o caminho

O fóton segue uma geodésica nula. Perto da superfície de uma estrela de nêutrons o desvio é de dezenas de graus: vemos mais da metade da estrela.

2 · Muda a energia

Um fóton emitido em r com energia local E chega ao infinito com

E∞ = E √(1 − RS/r)redshift gravitacional

3 · Atrasa

Caminhos diferentes levam tempos diferentes (atraso de Shapiro): os fótons de cada ponto da estrela chegam com dezenas de microssegundos de diferença.

Ray tracing é juntar as três numa conta só, pixel a pixel, para cada instante da rotação.

Numa estrela de nêutrons, R ≈ 2,5–3 RS: nenhum dos três efeitos é correção pequena.

E os três dependem só da métrica fora da estrela — por isso uma curva de luz carrega informação sobre a gravidade.

Geodésicas nulas em Schwarzschild

Duas constantes e um potencial

A métrica não depende de t nem de φ: energia e momento angular se conservam.

E = (1 − RSr) ṫ
L = r² φ̇

Para a luz só importa a razão, o parâmetro de impacto b = L/E:

1b² = ṙ²L² + V(r),   V = 1r²(1 − RSr)um “potencial” só da geometria
(dudφ)² = 1b² − u²(1 − RSu)a órbita · u = 1/r

O máximo de V fica em r = 1,5 RS: a esfera de fótons. Abaixo de bc = (3√3/2) RS o raio vem do horizonte — ou da estrela.

o potencial e a órbita · mesmo barraste b

Geodésicas de Schwarzschild

Como a luz se curva

u″ + u = 32 RS u²u = 1/r · equação da órbita da luz
  • b > 3√3 GM/c² ≈ 2,6 RS: a luz é desviada e escapa.
  • b = 2,6 RS: órbita instável na esfera de fótons, r = 1,5 RS.
  • b < 2,6 RS: capturada.

O termo à direita é a correção da Relatividade Geral. Sem ele, a luz andaria em linha reta.

Event Horizon Telescope · 2019 e 2022

As sombras

M87*M87* · 2019 · 6,5 bilhões de M☉ · 55 milhões de anos-luzEHT Collaboration · CC BY 4.0
Sgr A*Sgr A* · 2022 · 4,3 milhões de M☉ · 27 mil anos-luzEHT Collaboration · CC BY 4.0

O anel tem ~5 RS de diâmetro: é a esfera de fótons, a 1,5 RS, vista através da lente do próprio buraco negro — diâmetro da sombra = 2√27 GM/c² ≈ 5,2 RS.

Compacidade

Onde a RG deixa de ser correção

o raio e o raio de Schwarzschild da mesma massa

Superfície comparada ao infinito: z = (1 − rs/R)−1/2 − 1, g = (GM/R²)(1 − rs/R)−1/2 · desvio pela integral exata da órbita (campo fraco: 2rs/R) · ISCO, esfera de fótons e horizonte: uma estrela de 1,4 M☉ desse tamanho · os objetos passam sozinhos até o primeiro clique.

O ângulo que importa

Da superfície ao infinito: ψ(α)

Um fóton sai da superfície com ângulo α em relação à normal. Ao chegar ao observador, terá girado ψ em torno do centro:

b = R sin α√(1 − RS/R)
ψ(b) = ∫01/R du√(b−2 − u²(1 − RSu))exato
1 − cos α ≈ (1 − cos ψ)(1 − RSR)Beloborodov (2002)

Sem gravidade, ψ = α e o limbo está em 90°. Com gravidade, o limbo vai além: vemos atrás da estrela. A aproximação é ótima até R ≈ 3 RS e falha justamente onde aparece a imagem secundária.

ψ(α): exato, Beloborodov e espaço planoarraste a compacidade

A ideia ingênua: da estrela para a câmera

Muitos raios, quase nenhum pixel

  • Cada ponto da superfície emite em todas as direções; segue-se cada raio pela geodésica, para fora.
  • Só os que passam pela abertura da câmera viram pixel: aqui, 2 em cada 10 000.
  • Para completar esta imagem seriam ~10⁸ raios: horas de conta.
  • Com um telescópio de verdade, 1 m² a 1 kpc, chega 1 fóton em cada 10⁴⁰.

Contagem em 3D: ponto uniforme na superfície, direção isotrópica para fora, geodésica exata até a câmera, a 13 RS. Desenhada, só uma amostra no plano; os raios que entram na câmera aparecem todos.

O método: da câmera para a estrela

Um pixel, um raio

  • Os raios saem da câmera, um por pixel: o caminho da luz percorrido ao contrário. A direção do pixel dá o parâmetro de impacto b.
  • Integra-se a geodésica até o raio escapar para o céu ou acertar a superfície num ponto, com um ângulo α.
  • A cor do pixel é a do ponto de onde a luz saiu — corrigida por redshift e pelo ângulo de emissão.
  • Todo raio calculado vira pixel: 3 136 raios, 3 136 pixels, contra os 10⁸ do slide anterior.

Na simetria esférica, ψ depende só de b: basta uma tabela ψ(b), calculada uma vez, para todos os pixels. Cada raio é girado para o plano do desenho.

A aparência de uma estrela compacta

Vemos atrás da estrela

a mesma estrela, cada vez mais compacta · integral exataarraste a compacidade e a inclinação

À esquerda, a estrela como seria sem gravidade; à direita, ray-traced. A grade é a mesma; a gravidade dobra a luz em volta da estrela e mostra o hemisfério de trás.

  • A imagem é maior: raio aparente R/√(1 − RS/R).
  • Para R < 1,76 RS a superfície inteira aparece — o polo de trás vira um anel.
  • Abaixo de 1,5 RS a estrela estaria dentro da esfera de fótons.

1959 · Pound & Rebka · torre Jefferson, Harvard

A luz perde energia ao subir

Raios γ de 14,4 keV do ⁵⁷Fe (efeito Mössbauer). Pound & Rebka, PRL 4, 337 (1960): ~10%; Pound & Snider, Phys. Rev. 140, B788 (1965): ~1%. A cada 12 s fonte e absorvedor trocam de lugar, como no experimento.

Liouville · o que chega ao telescópio

O espectro que sai do poço

Ao longo de um raio, Iν/ν³ se conserva. Com g = √(1 − RS/R):

Iobs(E) = g³ Iem(E/g)intensidade específica
T∞ = g T
R∞ = R/g

Um corpo negro continua corpo negro, mais frio. A luminosidade vista de longe é L∞ = g² L.

Uma linha espectral de energia conhecida E0 chega em g E0: medir a linha é medir a compacidade.

espectro térmico com uma linha de absorçãoarraste a compacidade

Resumo da Parte II

A receita do ray tracing

  1. Escolha a métrica exterior: Schwarzschild; Hartle–Thorne ou Kerr com rotação; outra, se a teoria da gravidade for outra.
  2. Monte a tabela ψ(b) e o atraso Δt(b) integrando as geodésicas nulas uma vez.
  3. Para cada pixel (ou cada elemento da superfície): b → ponto emissor, ângulo α, redshift g, atraso.
  4. Intensidade: Iobs = g³ I(E/g, α′), com o feixe da atmosfera e o Doppler da rotação.
  5. Some: imagem, fluxo — e, fase a fase, a curva de luz e o espectro resolvido em fase.

Exato ou aproximado?

  • Integral exata (ou integrais elípticas): sempre vale, inclusive com imagens secundárias.
  • Beloborodov (2002) e Poutanen & Beloborodov (2006): fórmulas fechadas para ψ e para o atraso, ótimas para R ≳ 3 RS.
  • Oblate Schwarzschild (Morsink et al. 2007): estrela achatada pela rotação, para pulsares de milissegundo.

É esse o motor por trás das medidas de massa e raio do NICER — e dos resultados da Parte IV.

III

Parte três

Pulsares e
estrelas de nêutrons

Os laboratórios: mais compactos que qualquer coisa que não seja um buraco negro, girando, magnetizados — e com a superfície visível em raios X.

pulsares e magnetaresmanchas quentesrotação e atmosferaNICER
Pulsar (ilustração) · NASA · domínio público

Estrelas de nêutrons em números

Uma massa solar numa cidade

Estrela de nêutrons sobre Manhattan, em escalaNASA's Goddard Space Flight Center · domínio público
Uma estrela de nêutrons de ~20 km de diâmetro sobre Manhattan, em escala.

1,1–2,1 M☉

massas medidas

11–13 km

raio (NICER, ondas gravitacionais)

2–3 RS

compacidade: o regime da Parte II

10⁸–10¹⁵ G

campo magnético na superfície

Densidade central de algumas vezes a do núcleo atômico, ~10¹⁵ g/cm³. Períodos de rotação de 1,4 ms a dezenas de segundos.

A gravidade na superfície é ~10¹¹ vezes a da Terra; a velocidade de escape, de 0,5 a 0,7 c.

Cambridge · 28 de novembro de 1967

O primeiro pulsar: “LGM-1”

Jocelyn Bell BurnellRoger W Haworth · CC BY-SA 2.0
Jocelyn Bellem 1967, doutoranda
Antony HewishW. T. Sullivan III / NRAO/AUI · CC BY 4.0
Antony Hewishorientador · Nobel de 1974
Registro em papel do primeiro pulsar, 1967Bill Thompson · CC BY-SA 4.0
O registro original, de agosto de 1967: a “sujeira” marcada a lápis como CP 1919.

Bell notou um “ruído” que voltava no registro em papel do radiotelescópio: pulsos a cada 1,337 s, regulares como um relógio. Apelido: LGM-1, de Little Green Men — homenzinhos verdes. Era uma estrela de nêutrons girando.

Teoria do pulsar

O que se mede, e o que se deduz

catálogo ATNF · 2 855 pulsares com Ṗ medidopasse o mouse sobre os pontos
observávelexpressão
períodoP
idade característicatc = P/2Ṗ
campo magnéticoB = (3Ic³PṖ/8π²R⁶)1/2
energia de rotação perdidaĖrot = −4π²IṖ/P³

Estrela de nêutrons canônica

M = 1,4 M☉ · R = 10 km · I = 10⁴⁵ g cm²

B = 3,2×10¹⁹ (PṖ)1/2 G

|Ėrot| = 3,9×10⁴⁶ Ṗ/P³ erg/s

Só se mede P e Ṗ. O resto vem de supor um dipolo magnético girando — as retas do diagrama.

Atividades transientes

Um magnetar, girando

eventoenergia
surtos curtos (~0,1 s)10³⁹ – 10⁴¹ erg
outbursts (meses)10⁴¹ – 10⁴³ erg
flares gigantes10⁴⁴ – 10⁴⁶ erg

As linhas de campo, ancoradas na crosta, se torcem com o tempo. Quando a crosta não aguenta a tensão, ela racha — um estrelamoto — e a energia magnética sai de uma vez.

Flares gigantes na Galáxia e nas Nuvens de Magalhães: 1979, 1998 e 2004.

A superfície em raios X

Por que aparecem manchas quentes

Pulsares de milissegundo

Partículas aceleradas na magnetosfera voltam e aquecem as calotas polares a ~10⁶ K. São os alvos do NICER.

Magnetares

O decaimento do campo e as correntes nas linhas torcidas aquecem regiões da crosta — que mudam depois de cada outburst.

Estrelas isoladas que esfriam

O campo magnético torna a condução de calor anisotrópica: polos mais quentes que o equador (as “Sete Magníficas”).

NICER na Estação Espacial InternacionalNASA · domínio público
NICER · na Estação Espacial, desde 2017 · resolução temporal de ~100 ns
Observatório XMM-NewtonESA/XMM-Newton · CC BY-SA 3.0 IGO
XMM-Newton · ESA, desde 1999 · a maior área coletora em raios X moles
Observatório ChandraNASA/CXC/NGST · domínio público
Chandra · NASA, desde 1999 · a melhor resolução angular

Ray tracing de uma mancha quente

Uma mancha, uma curva de luz

estrela estática · integral exata, Beloborodov ou espaço plano

Duas manchas · as classes de Beloborodov

Antípodas, ou não

duas manchas: uma em cada polo magnético

Rotação e atmosfera

Doppler, aberração, atrasos e o feixe

mancha de 15° · 1,4 M☉, 12 km, girando
  • Doppler: a superfície anda a até 0,1–0,2 c; o lado que se aproxima brilha mais (fluxo bolométrico ∝ δ⁵).
  • Aberração: o ângulo de emissão muda no referencial da superfície.
  • Atrasos: dezenas de μs entre os pontos da estrela — frações do período a centenas de Hz.
  • Feixe: uma atmosfera não emite igual em todas as direções; o perfil depende disso.

Juntos, deixam o pulso assimétrico e criam harmônicos — e a assimetria mede R separado de M.

NICER · modelagem de perfis de pulso

Massa e raio pela forma do pulso

Manchas quentes de PSR J0030+0451 inferidas pelo NICERNASA/GSFC · domínio público
PSR J0030+0451 · as soluções das duas equipes: Amsterdã (Riley+ 2019, à esquerda) e Maryland (Miller+ 2019). Em ambas, as manchas estão longe de ser antípodas.
pulsarmassa (M☉)raio (km)
PSR J0030+0451 · Riley+ 20191,34+0,15−0,1612,7+1,1−1,2
PSR J0030+0451 · Miller+ 20191,44+0,15−0,1413,0+1,2−1,1
PSR J0740+6620 · Riley+ 20212,07+0,07−0,0712,4+1,3−1,0
PSR J0437−4715 · Choudhury+ 20241,42 ± 0,0411,4+1,0−0,6

O NICER marca o tempo de chegada de cada fóton com ~100 ns. Dobrando milhões de fótons no período, sai o perfil do pulso; o ray tracing, com M, R, a geometria e as manchas livres, ajusta esse perfil por inferência bayesiana.

As manchas de J0030 saíram não antípodas e alongadas: o campo não é um dipolo centrado.

IV

Parte quatro

Resultados
recentes

Ray tracing aplicado a dados reais — magnetares, um magnetar massivo, colunas de acreção — e a mesma ferramenta usada para testar a gravidade além de Einstein.

SGR J1745−29003XMM J1852+0033colunas de acreçãogravidade escalar-tensorialbraneworld
Magnetar (ilustração) · ESO/L. Calçada · CC BY 4.0

2017 – 2026

Curvas de luz como instrumento

2017

A&A 599, A87: SGRs e AXPs movidos a rotação, com estrelas de nêutrons realistas

2020

ApJ 889, 165: SGR J1745−2900 e um campo multipolar, pela curva de luz

2023

Galaxies 11, 18: perfis de pulso de colunas de acreção

2024

JHEAp 42, 52: 3XMM J1852+0033, um magnetar massivo de campo baixo

2024

EPJC 84, 1337: curvas de luz como teste de gravidade escalar-tensorial

2024

PRD 110, 103014: rotação estratificada e o momento de inércia

2025

PRD 112, 083010: estrelas de quarks e a equação de estado da QCD

2026

arXiv:2607.09836: estrelas compactas num braneworld de tensão alta

2026

JHEAp (submetido): a coluna de 1A 0535+262 pelo espectro do NuSTAR

O fio comum: ler na luz de uma estrela compacta a sua massa, o seu raio, o seu campo — e a gravidade que a curva.

de Lima, Coelho, Pereira, Rodrigues & Rueda · ApJ 889, 165 (2020)

SGR J1745−2900: mais de duas manchas

Curvas de luz do Chandra de SGR J1745-2900 com ajustes de três manchas
Curvas de luz do Chandra (2013 e 2016) e os ajustes com três manchas.
Posições das três manchas em 2013 e 2016
As três manchas: duas nos polos, uma no hemisfério sul.
  • O magnetar a 0,1 pc de Sgr A*; 3,5 anos de dados do Chandra.
  • Modelo: M, R, até três manchas de qualquer tamanho e posição, desvio da luz em Schwarzschild; ajuste por algoritmo genético.
  • Duas ou três manchas descrevem os dados; com três, elas são grandes (16–67°).
  • Um campo com estrutura poloidal e toroidal não trivial — o mesmo recado do NICER para J0030.

1,4 ± 0,1

M☉

10,9 ± 1,5

km

de Lima et al. · JHEAp 42, 52 (2024) · 1/2

3XMM J1852+0033: ray tracing e inferência

Perfil de pulso de 3XMM J185246.6+003317 com o melhor ajuste
Um dos cinco perfis de pulso (XMM-Newton, 2008) e o melhor ajuste: em tracejado, a contribuição de cada mancha.
  • Um magnetar transiente perto do remanescente Kes 79, P = 11,56 s; até aqui só havia limites superiores para o campo.
  • Cinco épocas do XMM-Newton em três semanas de 2008.
  • Ray tracing em Schwarzschild com manchas circulares de tamanho qualquer (Turolla & Nobili 2013) e atmosferas magnetizadas (NSMAX: H, C, O), com emissão anisotrópica.
  • Inferência bayesiana (MCMC): massa, raio, campo e posição das manchas comuns às épocas; tamanho e temperatura variando.
  • Testado com injeção e recuperação de dados simulados.

Melhor modelo

Três manchas pequenas, duas no hemisfério sul, e atmosfera de carbono: χ²/gl = 1,22, muito à frente de duas manchas ou de hidrogênio.

de Lima et al. · JHEAp 42, 52 (2024) · 2/2

Um magnetar massivo, de campo baixo

2,09+0,16−0,09 M☉

massa (1σ): entre as maiores já estimadas

12,0 ± 1,4 km

raio (2σ)

~8×10¹¹ G

campo na superfície: log B = 11,89+0,19−0,93, abaixo do crítico

Distribuições posteriores de massa, raio e campo
Posteriores de M, R e log B.
Geometria do melhor ajuste: três manchas
A geometria do melhor ajuste.

Leitura: acreção de material da supernova enterrou o campo, que está reemergindo; a atmosfera de carbono viria da queima nuclear difusiva de H/He.

Compacidade GM/Rc² ≈ 0,26: favorece equações de estado de rigidez intermediária.

Silva, de Lima, Coelho, Stecchini, de Liz & de Araujo · Galaxies 11, 18 (2023)

Quando a luz sai de uma coluna

Malha 3D da estrela com colunas de acreção
A estrela e as colunas (tronco de cone e cilindro) como malha 3D.
Esboço do ray tracing com e sem periastro
Fótons emitidos acima da superfície podem passar por um periastro antes de escapar.
Perfil de pulso de 1A 0535+262 com o melhor modelo
1A 0535+262 (NuSTAR, 2018): perfil observado e o modelo de duas colunas.
  • Em binárias de raios X, a matéria cai pelas linhas de campo e forma colunas sobre os polos: a emissão sai pelos lados (feixe em leque).
  • Ray tracing exato em Schwarzschild, inclusive para pontos acima da superfície, em tabela; Doppler incluído.
  • Algoritmo genético para os priores, depois MCMC.

1,53+0,52−0,40

M☉

12,1+1,1−0,9

km

Silva, de Lima, Coelho & de Araújo · submetido ao JHEAp (2026) · o modelo

Dentro da coluna, pelo espectro

  • A mesma estrela do slide anterior, agora pelo espectro: NuSTAR, 3–44 keV, L ≈ 3,7×10³⁶ erg/s — 16 vezes abaixo da luminosidade crítica.
  • Modelo de Becker & Wolff (2022): coluna cônica; os fótons ganham energia nos elétrons quentes e no gás que cai (Comptonização térmica e de bulk) e escapam pelas paredes.
  • 12 parâmetros, 4 cadeias de MCMC independentes de 256 walkers. O posterior tem dois modos; o dominante vence por Δln 𝒫 ≈ 55.
v(y) = −vff [k∞²(y³ − 1) + k0²y4]1/2y = r/R★ · queda livre no alto, freada perto da superfície

Silva, de Lima, Coelho & de Araújo · submetido ao JHEAp (2026) · a companheira

Uma estrela Be: um disco no equador

Ilustração de uma binária Be/X: a estrela Be com o seu disco, um fluxo de gás e a estrela de nêutrons com um disco de acreçãoilustração gerada por IA
Uma binária Be/X: o disco da estrela Be, o gás arrancado dele e o disco de acreção em volta da estrela de nêutrons.
  • Estrelas Be: quentes, dos tipos B e O tardio, giram perto do limite de rompimento e perdem gás pelo equador, formando um disco.
  • O “e” de O9.7–B0 IIIe são as linhas de emissão do hidrogênio, como Hα, que vêm do disco; o perfil de dois picos mostra que ele gira.
  • Em 1A 0535+262 a companheira é a estrela de nêutrons, numa órbita de 111 dias que passa pela borda do disco — o próximo slide.

Silva, de Lima, Coelho & de Araújo · submetido ao JHEAp (2026) · o sistema

De onde vem o gás da coluna

  • 1A 0535+262: uma estrela de nêutrons que pulsa a cada 103 s, com B ≈ 5×10¹² G, em órbita excêntrica — e ≈ 0,45, 111 dias — em torno de HD 245770, uma estrela Be (O9.7–B0 IIIe), a 1,8 kpc.
  • A estrela Be gira rápido e solta um disco de gás pelo equador.
  • No periastro a estrela de nêutrons passa pela borda do disco e rouba gás: uma explosão em raios X a cada órbita.
  • Perto dela, o campo corta o disco no raio magnetosférico e leva o gás até os polos: as colunas.

Em 2020, uma explosão gigante chegou a 1,2×10³⁸ erg/s; em quiescência, ~7×10³⁴ erg/s. A órbita tem a excentricidade e o período do sistema; as estrelas, o disco e o detalhe são esquemáticos.

Silva, de Lima, Coelho & de Araújo · submetido ao JHEAp (2026) · o modelo de Becker & Wolff

Uma equação para os fótons da coluna

v ∂f∂R = ε3R² ∂(R²v)∂R ∂f∂ε + 1R² ∂∂R(R²c3neσ∥ ∂f∂R) + neσ̄cmec² 1ε² ∂∂ε[ε⁴(f + kTe ∂f∂ε)] − ftesc + Q(R, ε) equação de transporte estacionária para a distribuição dos fótons, f(R, ε) · Becker & Wolff (2022), geometria cônica

advecção

o gás que cai arrasta os fótons, com o v(y) do slide anterior

Comptonização de bulk

o fluxo converge: espalhando no gás que cai, os fótons ganham energia

difusão

os fótons andam ao longo da coluna, com a seção de choque σ∥ do campo forte

Comptonização térmica

o termo de Kompaneets: elétrons a Te levam o espectro para ~kTe

escape

os fótons saem pelas paredes num tempo tesc: o feixe em leque

fontes

fótons-semente: bremsstrahlung, cíclotron e corpo negro da base

Como se resolve

fG = Σn Cn gn(τ) (εkTe)κ−4 e−ε/2kTe Mκ,μ(εminkTe) Wκ,μ(εmaxkTe)

Separação de variáveis: autofunções gn(τ) na profundidade óptica e funções de Whittaker na energia. O espectro é essa função de Green convoluída com as fontes, somando parede e topo da coluna. Seções de choque magnéticas com polarização do vácuo; linhas de cíclotron e do ferro, empíricas. A implementação foi conferida equação por equação.

O que o MCMC amostra: 12 parâmetros

αvelocidadeξdifusãoψbulk/térmicaθ0aberturak0impactoytopalturaTeelétronsṀacreçãoBcampodFeferrofsyssistemáticaDdistância

Fixos: M = 1,4 M☉, R★ = 10 km, NH e a linha de cíclotron, fora da banda. B tem prior pela linha (46,3 keV). A verossimilhança é gaussiana, com a sistemática fsys, e cobra o orçamento Lacc = GMṀ/R★ dentro de um fator 2.

Silva, de Lima, Coelho & de Araújo · submetido ao JHEAp (2026) · resultados

Uma coluna quente e alta — e uma peça faltando

Espectro NuSTAR de 1A 0535+262 com o modelo de Becker e Wolff e os resíduos
O espectro NuSTAR e o posterior (mediana e faixas de 1σ e 2σ), com os resíduos. No detalhe, a linha do ferro.

8,56×10⁷ K

temperatura dos elétrons, a 1% · kT ≈ 7,4 keV

4,5 R★

topo da coluna, ~35 km acima da superfície

0,070

ψ, bulk/térmica: a Comptonização térmica domina

log θ0 − 1,36 log Ṁ
= −22,32 ± 0,10

o espectro fixa a combinação: mais Ṁ, coluna mais larga

Uma peça faltando

O campo sai 2,3σ acima do da linha de cíclotron — que ficaria em 55 keV, não nos 46 medidos — e os resíduos andam juntos (teste de corridas: z = −3,7). Candidata: recombinação entre níveis de Landau excitados, vista nesta fonte e ausente do modelo.

Modo dominante do posterior. χ²ν = 1,00 com a incerteza sistemática livre não é teste de ajuste: o diagnóstico são os resíduos.

Brans & Dicke 1961 · Damour & Esposito-Farèse 1993

E se a gravidade não for a de Einstein?

Carl BransCfbolner (Wikimedia Commons) · CC BY-SA 4.0
Carl Brans1935 – 2022
Thibault DamourMelirius (Wikimedia Commons) · CC BY 3.0
Thibault Damourn. 1951

O que é “acoplar-se à matéria”

g̃μν = A²(φ) gμνa métrica que a matéria sente

A matéria mede distâncias e tempos com g̃: as suas réguas e relógios mudam com φ. A luz não percebe — uma troca conforme não muda as geodésicas nulas —, mas o raio que a matéria mede é R = AsRE.

α(φ) = d ln Adφa força do acoplamento

A matéria é fonte do campo, □φ = −4πGαT, e sente uma força a mais, ∝ α∇φ: entre dois corpos, Gef = G(1 + α²).

Nas teorias escalar-tensoriais, além da métrica há um campo escalar φ que se acopla à matéria. No Sistema Solar o acoplamento é minúsculo (α² < 10⁻⁵, pela sonda Cassini); numa estrela de nêutrons pode ocorrer escalarização espontânea: com A = eβφ²/2 e β ≲ −4,35, φ = 0 fica instável e o campo cresce sozinho, como uma magnetização espontânea.

Fora da estrela, a métrica deixa de ser a de Schwarzschild: é a métrica de Just, com uma carga escalar Q:

ds² = −(1 − ar)b/adt² + (1 − ar)−b/adr² + (1 − ar)1 − b/ar²dΩ²b = 2GM/c² · a/b = √(1 + Q²) · referencial de Einstein

Duas estrelas com a mesma massa e o mesmo raio — “doppelgängers” — curvam a luz de maneiras diferentes. A curva de luz pode separar as teorias.

Ottoni, Coelho, de Lima, Pereira & Rueda · EPJC 84, 1337 (2024)

A mesma estrela, outra gravidade

M = 2,1 M☉ · uma mancha de 10° · ι = θ = 90° · estrela estática · integral exata

Ottoni et al. · EPJC 84, 1337 (2024) · resultados

Até 80% de diferença no fluxo

Ângulo crítico de desvio contra a compacidade
O ângulo crítico contra M/R: a linha da RG e a faixa escalar-tensorial.
Fluxo a 700 Hz e diferença relativa
Girando a 700 Hz, com Doppler e atrasos: fluxo e diferença relativa à RG.
  • A compacidade em que ψc = π vai de 0,275 a 0,305 na teoria escalar-tensorial, contra 0,284 na RG.
  • O fluxo de uma mancha difere da RG em até ~80%.
  • O raio muda até ~10% para os mesmos parâmetros da estrela: hoje, isso limita Q ≲ 0,5.
  • Com o NICER, J0740+6620 tem C = 0,21–0,28: ainda não separa as teorias.

Perspectiva

Raios com incerteza menor — eXTP, NewAthena, e as ondas gravitacionais de Einstein Telescope e LISA — podem limitar as teorias escalar-tensoriais pela forma do pulso.

Randall & Sundrum 1999 · Shiromizu, Maeda & Sasaki 2000

O Universo numa membrana

bulk · 5 dimensões: só a gravidade brana · 4 dimensões: matéria, luz — e nós luz: presa na brana a gravidade vaza Eμν o bulk visto da brana estrela de nêutrons

No braneworld, o nosso Universo é uma hipersuperfície de quatro dimensões — a brana — dentro de um espaço com uma dimensão a mais, o bulk. Matéria e luz ficam presas na brana; só a gravidade se propaga no bulk.

A ideia aparece para atacar o problema da hierarquia (por que a gravidade é tão fraca) e o da constante cosmológica e da expansão acelerada.

Gμν = 8πTμν + 48πλ Sμν − EμνShiromizu, Maeda & Sasaki 2000 · κ54 = 48π/λ (G = c = 1)
  • Sμν: correções locais, quadráticas na matéria (∝ T²). Num fluido, somam ρ²/2λ à densidade: pesam quando ρ se aproxima da tensão da brana λ.
  • Eμν: o tensor de Weyl do bulk projetado na brana — não local: não se calcula só com o que existe na brana.
  • Para λ → ∞ e Eμν → 0, volta a Relatividade Geral.

No artigo: um fechamento efetivo em 4D, inspirado no cenário de Sahni–Shtanov (2003) — não uma solução completa do bulk em 5D.

As equações TOV modificadas · equação de estado SLy

Mesma física nuclear, outra gravitação

A equação de estado da matéria (SLy) não muda. Muda o quanto ela gravita: a estrela passa a sentir uma densidade e uma pressão efetivas.

ρef = ρ + ρ²2λ + ρ𝒰
pef = p + pρλ + ρ²2λ + p𝒰termo local (λ) · setor de Weyl (𝒰)
dmdr = 4πr² ρef
dpdr = −(ρ + p) m + 4πr³pefr(r − 2m)a matéria se conserva: o fator (ρ + p) é o de sempre

O termo local aumenta a atração e encolhe a estrela — mas só quando ρ se aproxima de λ. No centro de uma estrela de nêutrons ρ ≈ 2×10⁻³ km⁻²; com λ ~ 10⁴ km⁻², ρ/λ ~ 10⁻⁷.

TOV modificada · SLy

O que vem do bulk

O setor de Weyl: blindagem ou atração extra

Eμν é a marca do campo gravitacional do bulk na brana. Ali ele age como um fluido efetivo — em cosmologia, a “radiação escura”. Só que a brana não determina esse fluido: é preciso um fechamento.

ρ𝒰 = α𝒰 ρ
p𝒰 = w𝒰 ρ𝒰

Fechamento isotrópico; a tensão anisotrópica do Weyl (Δ𝒰) fica para trabalhos futuros.

se…efeito na estrela
α𝒰 < 0ρef = ρ(1 + α𝒰) < ρ: blindagem — menos massa gravitando, estrelas maiores e mais pesadas
α𝒰 > 0mais atração: estrelas menores e mais leves
w𝒰só aparece como w𝒰α𝒰ρ na pressão efetiva: pesa pouco quando α𝒰 é pequeno, e pode compensar α𝒰
curvas M–R com λ = 10⁴ km⁻² · SLytracejado: RG

dos Santos Júnior, de Lima & Moraes · arXiv:2607.09836 (2026, submetido) · resultados

Tensão alta, Weyl levemente negativo

Dados e inferência

GW170817 (raios da deformabilidade de maré) + NICER: PSR J0740+6620 e PSR J1231−1411 — os dois, resultados de ray tracing de perfis de pulso. MCMC de ensemble (4 × 32 caminhantes × 3 000 passos, 288 000 amostras), priores centrados em λ grande e nos valores da RG.

mediana68%RG
log10(λ/km⁻²)3,982,54 – 5,50∞
α𝒰−0,15−0,23 – 0,150
w𝒰0,24−0,78 – 0,610
Mmáx (M☉)2,302,22 – 2,442,05
R1,4 (km)13,3112,74 – 13,8511,76
Faixa massa-raio do braneworld contra a RG
A faixa M–R do posterior (68% e 95%), a RG+SLy (tracejado) e os vínculos usados.
  • λ ~ 10⁴ km⁻²: o termo local some (ρ/λ ~ 10⁻⁷). O posterior quase repete o prior: os dados são compatíveis com tensão alta, não medem λ.
  • α𝒰 < 0 em 83% das amostras: uma blindagem leve. É o setor de Weyl, e não o termo local, que empurra a curva para a direita.
  • Um ramo secundário (17%): α𝒰 > 0 com w𝒰 < 0 se compensam — R1,4 menor, Mmáx maior, compacidade perto do limite imposto.
  • Mmáx ≈ 2,3 M☉: compatível com PSR J0952−0607 (2,35 ± 0,11 M☉). GW190814 (2,50–2,67 M☉) só cabe na cauda de 95%.
  • O recado: estrelas mais pesadas não são uma previsão genérica do braneworld — dependem do sinal do setor de Weyl.

Itoh 1970 · Bodmer 1971 · Witten 1984 · a hipótese da matéria estranha

E se o ferro não for o fundo do poço?

Em densidades extremas os nêutrons podem se desfazer em quarks. A hipótese de Bodmer e Witten vai além: a matéria de quarks u, d e s seria o estado fundamental da matéria — com energia por bárion menor que a do ⁵⁶Fe, 930 MeV.

só u e d u, d e s · mesmo número de quarks μ μ ms u d u d s d → s

Pauli: cada sabor tem o seu mar de Fermi. Um terceiro sabor abre níveis novos, e o topo (μ) desce — mesmo pagando a massa do s.

  • Os núcleos não decaem porque precisariam de ~A conversões fracas d → s simultâneas.
  • E a matéria só de u e d precisa ser instável — senão o próprio ferro já teria virado quarks.
  • Se valer, “estrelas de nêutrons” podem ser estrelas de quarks, presas pela interação forte.
a janela de estabilidade · energia por bárion a p = 0

Alford, Braby, Paris & Reddy 2005 · uma equação de estado informada pela QCD

A QCD densa em três números

ω = −3a44π² μ⁴ + 3a24π² μ² + Bpotencial termodinâmico · p = −ω · μ: potencial químico dos quarks
a4 = 1 − ca interação forte. a4 = 1 são quarks livres; a QCD perturbativa sugere c ≳ 0,3
a2 = ms² − 4Δ²a massa do quark s contra o gap Δ da supercondutividade de cor (fase CFL) — pode ser negativo
Ba constante de sacola: o custo de abrir o vácuo da QCD

Na superfície p = 0, mas a densidade não: ρs ≈ 4B ~ 10¹⁴–10¹⁵ g/cm³. A estrela é autoligada: em massas pequenas, M ∝ R³, ao contrário da estrela de nêutrons.

TOV + a equação de maré com o salto da superfície (Δy = −4πR³ρs/M), resolvidas aqui. O exemplo do artigo dá 2,19 M☉, 11,97 km e Λ = 852 — o painel reproduz.

TOV + maré · quarks u, d, s

Zastrow, Pereira, de Lima & Horvath · PRD 112, 083010 (2025) · o método

Milhares de estrelas sorteadas

Cada ponto (a2, a4, B) dentro da janela de estabilidade é uma família inteira de estrelas: TOV para M e R, a equação de maré para Λ. O artigo sorteou 263 287 pontos por hipercubo latino; aqui o navegador sorteia os seus, ao vivo.

faixa aceitade onde vem
Mmáx2,13 – 2,33 M☉pulsares em binárias (Romani et al. 2022) · GW170817 + GRB 170817A (Rezzolla et al. 2018)
R1,410,00 – 13,25 kmraios do NICER — ray tracing — e de ondas gravitacionais (compilação de Pang et al. 2023)
Λ1,4< 970deformabilidade de maré de GW170817

Âmbar: as famílias que passam nos três testes. As linhas tracejadas mostram até onde vão os aceitos — e convergem para os limites do artigo.

amostragem quase aleatória · ao vivo

Zastrow, Pereira, de Lima & Horvath · PRD 112, 083010 (2025) · resultados

Quarks que interagem, superfície densa

vínculos combinadosfaixa
a40,18 – 0,81
a2 (10³ MeV²)−202 – 42
B1/4 (MeV)114 – 185
R1,4 (km)10,00 – 12,26
Λ1,4270 – 970
ρsuperfície (10¹⁵ g/cm³)0,29 – 0,60
cs/c0,51 – 0,85

A velocidade do som passa de c/√3 ≈ 0,58 — o limite conforme da QCD em densidade infinita — quando a2 < 0.

Curvas massa-raio permitidas para estrelas de quarks, com XMMU J173203.3−344518
Todas as curvas M–R que passam nos vínculos, com XMMU J173203.3−344518 (laranja).
  • a4 ≲ 0,81: a matéria se afasta pelo menos 20% dos quarks livres. As interações fortes não podem ser desprezadas, em nenhuma massa.
  • Δ ≲ 230 MeV (com ms = 100 MeV), do limite inferior de a2 — de acordo com o limite independente de ≲ 216 MeV (Kurkela et al. 2024).
  • A superfície salta do vácuo para 1,1–2,2 ρsat: um número que entra na maré, nos modos de oscilação e nas montanhas da estrela.
  • R1,4 = 10,0–12,3 km, como uma estrela de nêutrons: o raio sozinho não distingue as duas; a maré pode.
  • XMMU J1732−344 (0,77 M☉, 10,4 km, em HESS J1731−347) cai nas curvas sem esforço — uma candidata a estrela de quarks, se o modelo de atmosfera do raio estiver certo.

Pereira, Ottoni, Coelho, Rueda & de Lima · PRD 110, 103014 (2024)

Quando o núcleo e a crosta não giram juntos

Quase todo cálculo trata o pulsar como um corpo rígido. Mas o interior pode ser superfluido, ter uma transição de fase — um caroço de quarks — ou ganhar camadas acretadas que giram diferente, como na tacoclina do Sol.

1r⁴ddr(r⁴j ω̄′) + 4j′r ω̄ = 0arrasto de referenciais na rotação lenta · Hartle 1967 · ω̄ = Ω − ω
[ω̄]R★ = [Ω],   [ω̄′]R★ = 0   ·   I = JΩ⁺o salto em R★, deduzido no artigo · Ω⁺: a rotação da superfície, a que a cronometragem mede

O J vem da derivada de ω̄ na superfície, e por isso sente o salto: a mesma estrela, com o mesmo Ω⁺, tem outro momento de inércia.

Hartle + SLy · rotação em duas camadastraço longo: 1,0 M☉ · pontilhada: 2,0 M☉

Pereira, Ottoni, Coelho, Rueda & de Lima · PRD 110, 103014 (2024) · resultados

Rotação rígida é uma hipótese — e tem custo

  • Perto da superfície, ΔI/I → ΔΩ/Ω⁺; abaixo de ~40% do raio, o efeito some. Cresce depressa para R★ ≳ 0,6 R, e mais nas estrelas leves.
  • Estrelas híbridas: o salto fica na transição para o caroço de quarks, e só passa de 5% com 𝒞 ~ 20% e R★ ≳ 0,8 R (figura).
  • No raio: com a massa conhecida, ΔR/R = ½ ΔI/I. Dez por cento em I são 5% em R — o tamanho das barras do NICER, que vêm de ray tracing.
  • Medida direta de I: o pulsar duplo J0737−3039A deve dar I com 11% até 2030 (hoje, I45 = 1,15–1,48). Saltos de 10–20% em Ω não se distinguem da rotação rígida.
  • Energia: com I 10–20% maior, cinco pulsares de raios gama do Fermi com Lγ > Ė voltam a caber na energia de rotação.
  • I-Love-Q: o quadrupolo depende de outra função além de J — as relações universais enfraquecem. E nos CCOs, camadas acretadas podem girar diferente por até ~10 mil anos.
Variação do momento de inércia de estrelas híbridas contra a massa
Estrelas híbridas (η = 0,39 e 0,77): ΔI/I com o salto na transição de fase, contra a massa.
pulsar (Fermi)Lγ/Ė, I0+10%+20%
J1057−58511,19> 10,99
J1522−57351,090,990,91
J1650−46011,11> 10,92

Conclusões

Da geometria à observação — e de volta

  • Numa estrela de nêutrons, desvio da luz, redshift e atrasos não são correções: definem a imagem e a curva de luz.
  • O ray tracing de trás para a frente — com a integral exata quando a compacidade pede — liga a métrica ao que um telescópio mede.
  • Aplicado a dados do Chandra, do XMM-Newton e do NuSTAR, deu massa, raio, campo e a geometria das manchas de magnetares e de uma estrela acretante — e, pelo espectro, a temperatura e a altura da sua coluna.
  • Como a curva de luz depende só da métrica exterior, ela também testa a gravidade: teorias escalar-tensoriais e braneworld.
  • E o interior conta: estrelas de quarks e rotação estratificada mudam o M, o R e o I que o ray tracing mede.

Próximos passos

  • Atmosferas magnetizadas e ray tracing exato juntos, para as estrelas isoladas que esfriam.
  • Rotação rápida e métricas além de Schwarzschild nos mesmos ajustes.
  • Os dados da próxima geração: eXTP, NewAthena, STROBE-X.

Os painéis deste seminário rodam no navegador: rafael-lima.pages.dev/talks.

Créditos das imagens

Fotos e figuras de uso livre

Albert Einstein — Ferdinand Schmutzer / Adam Cuerden · domínio público

Karl Schwarzschild — autor desconhecido · domínio público

M87* (EHT) — Event Horizon Telescope Collaboration · CC BY 4.0

Sgr A* (EHT) — EHT Collaboration · CC BY 4.0

Jocelyn Bell, 1967 — Roger W Haworth · CC BY-SA 2.0

Antony Hewish — Woodruff T. Sullivan III / NRAO/AUI Archives (NRAO/AUI/NSF) · CC BY 4.0

Registro de CP 1919, 1967 — Bill Thompson (Billthom) · CC BY-SA 4.0

Estrela de nêutrons sobre Manhattan — NASA's Goddard Space Flight Center · domínio público

Eclipse de 1919 — ESO/Landessternwarte Heidelberg-Königstuhl/F. W. Dyson, A. S. Eddington, & C. Davidson · CC BY 4.0

SMACS 0723 (JWST) — NASA, ESA, CSA, and STScI · domínio público

NICER — NASA · domínio público

XMM-Newton — ESA/XMM-Newton · CC BY-SA 3.0 IGO

Chandra — NASA/CXC/NGST · domínio público

Pulsar (ilustração) — NASA · domínio público

Magnetar (ilustração) — ESO/L. Calçada · CC BY 4.0

Carl Brans — Cfbolner · CC BY-SA 4.0

Thibault Damour — Melirius · CC BY 3.0

PSR J0030+0451: modelos das manchas — NASA's Goddard Space Flight Center · domínio público

Figuras dos artigos (Parte IV) — de Lima et al., ApJ 889, 165 (2020); de Lima et al., JHEAp 42, 52 (2024, CC BY 4.0 no arXiv); Silva et al., Galaxies 11, 18 (2023, CC BY 4.0); Ottoni et al., EPJC 84, 1337 (2024, CC BY 4.0); dos Santos Júnior, de Lima & Moraes, arXiv:2607.09836 (CC0); Pereira et al., PRD 110, 103014 (2024); Zastrow et al., PRD 112, 083010 (2025); Silva, de Lima, Coelho & de Araújo (submetido ao JHEAp, 2026)

Chapa simulada de Sobral — posições do catálogo Tycho-2 (Høg et al., A&A 355, L27, 2000), via VizieR/CDS

Binária Be/X (ilustração) — gerada por IA

Diagrama P–Ṗ — catálogo de pulsares ATNF 2.8.1 (Manchester et al., AJ 129, 1993, 2005)

Obrigado

Perguntas?

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Rafael C. R. de Lima

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Notas