Palestra
Do nascimento
à morte das estrelas
De uma nuvem fria de hidrogênio a uma anã branca, uma estrela de nêutrons ou um buraco negro — e a física que decide qual será o fim.
Roteiro
Cinco partes, uma vida
I
O nascimento
Nuvens moleculares, o critério de Jeans e por que uma nuvem que encolhe acaba acendendo.
II
A vida
Fusão contra gravidade, massa e tempo de vida, o diagrama H–R e o que acontece quando o hidrogênio acaba.
III
Estrelas degeneradas
Heisenberg e Pauli seguram o que a fusão não segura mais — até o limite de Chandrasekhar.
IV
Estrelas de nêutrons
Pulsares, magnetares, a densidade nuclear e a luz que faz curva — com resultados da minha pesquisa.
V
Buracos negros
De Laplace a Schwarzschild, o horizonte, o tempo que congela e as estrelas em volta de Sgr A*.
I
Parte um
O nascimento
Uma estrela nasce quando a gravidade de uma nuvem fria vence a agitação térmica do próprio gás.
Nuvens moleculares
Onde nasce uma estrela?
NASA, ESA, M. Robberto · domínio públicoEm nebulosas: nuvens frias de gás e poeira.
- Nuvens moleculares: o hidrogênio está em moléculas, H₂.
- Densas o bastante para haver química: H₂, monóxido de carbono (CO), formaldeído (H₂CO), água, álcool…
- Frias: de 10 a 20 K, perto de −260 °C.
10–20 K
temperatura
10²–10⁶
moléculas por cm³
10⁶ M☉
até isso, numa nuvem gigante
Mesmo a parte mais densa é um vácuo melhor que o de laboratório: o ar que respiramos tem 2,5×10¹⁹ moléculas por cm³.
Nebulosa da Águia · M16 · 7 000 anos-luz
Os Pilares da Criação
Hubble · luz visívelNASA, ESA, Hubble Heritage Team · domínio público
Webb · infravermelhoNASA, ESA, CSA, STScI · domínio públicoHá estrelas nascendo nos pilares: as protoestrelas.
Na luz visível a poeira as esconde. No infravermelho ela fica transparente, e elas aparecem como pontos avermelhados nas pontas dos pilares.
O pilar da esquerda tem uns 4 anos-luz de altura. Hubble: 1995, refeita em 2014. Webb: 2022.
Sir James Jeans · 1902
Quando a gravidade vence o calor?
A ideia
Uma região de raio R e massa M colapsa se as moléculas, agitadas pela temperatura T da nuvem, não têm velocidade suficiente para escapar dela.
Aí a gravidade vence a pressão causada pela energia térmica, e qualquer perturbação faz a região cair sobre si mesma.
É a mesma conta da velocidade de escape que vai reaparecer na Parte V — lá, com a luz no lugar das moléculas.
Energia cinética média de uma molécula de massa m, e a energia potencial gravitacional dela na borda da região:
O limiar do colapso é quando as duas se igualam:
Resolvendo para R:
Comprimento e massa de Jeans
Quanto mais densa, menor o pedaço que colapsa
Numa análise mais cuidadosa, com perturbações de pressão, Jeans encontrou:
À medida que a nuvem colapsa e fica mais densa, a massa que consegue colapsar sozinha diminui: a nuvem se quebra em pedaços — e cada pedaço vira uma estrela. É por isso que estrelas nascem em grupos.
Colapso e fragmentação
Da nuvem às protoestrelas
A nuvem cai sobre si mesma. As regiões mais densas colapsam mais depressa — o tempo de queda livre vai com ρ−1/2 — e o colapso fragmenta a nuvem em vários núcleos.
Cada fragmento gira cada vez mais rápido ao encolher, como a patinadora que fecha os braços: forma um disco, e no centro dele uma protoestrela.
Ilustração, não simulação: partículas com gravidade amolecida e um pouco de agitação térmica, num plano. O gás real tem pressão, turbulência, campo magnético e radiação — simulações completas em Krumholz, Klein & McKee, ApJ 656, 959 (2007).
A diferença é a temperatura
Qual a diferença entre uma nuvem e uma estrela?
NASA, ESA, M. Robberto · domínio público
ALMA · CC BY 4.0
NASA/SDO · domínio públicoRadiação de corpo negro · Planck 1900
Uma estrela é um corpo negro… ou quase
Mais quente, o pico vai para o azul e o brilho cresce muito: dobrar T multiplica a luminosidade por 16.
As classes espectrais O B A F G K M são uma escala de temperatura: de mais de 30 000 K (azuis) a menos de 3 700 K (vermelhas). O Sol é uma G2.
“Ou quase”: o espectro real tem linhas de absorção dos elementos da atmosfera, e é por elas que sabemos do que as estrelas são feitas.
Hayashi · Henyey · 1961
Da protoestrela à sequência principal
- A protoestrela começa como uma concentração invisível de gás no fundo da nuvem.
- Contrai e esquenta, escondida num casulo de poeira: só aparece no infravermelho.
- Sopra o casulo e fica visível, ainda encolhendo: primeiro quase na vertical do diagrama (trilha de Hayashi), depois para a esquerda (trilha de Henyey).
- Quando o centro chega a ~10 milhões K, o hidrogênio começa a fundir: a estrela entra na sequência principal e para de encolher.
Trilhas esquemáticas, com pontos-chave aproximados dos modelos de Iben (1965). Quanto maior a massa, mais rápido: ~50 milhões de anos para 1 M☉, ~1 milhão para 5 M☉.
II
Parte dois
A vida
Bilhões de anos de equilíbrio entre a gravidade, que esmaga, e a fusão nuclear, que empurra para fora.
Como é a vida de uma estrela?
Brilho, estabilidade… e paz?
Brilho.
Estabilidade.
Paz.
Paz, não. No centro de cada estrela, sem parar, acontece a reação de uma bomba de hidrogênio.

Cadeia próton–próton
O coração de uma estrela é (literalmente) uma bomba de hidrogênio
NNSA / Nevada Site Office · domínio público²H + ¹H → ³He + γ
³He + ³He → ⁴He + 2 ¹H no total: 4 ¹H → ⁴He + 2 e⁺ + 2 νe + 26,7 MeV
As reações nucleares mantêm
- a temperatura — o brilho de corpo negro
- a pressão que impede o colapso gravitacional
A gravidade mantém
- a estrela coesa — a bomba não se desfaz
- a radiação presa: um fóton leva ~100 mil anos para sair do Sol
610 mi t/s
de hidrogênio viram hélio
4,3 mi t/s
de massa viram luz (E = mc²)
9×10⁹
Ivy Mikes por segundo
Equilíbrio hidrostático
Um equilíbrio violento
Em cada camada, o peso de tudo que está acima é sustentado pela diferença de pressão. Se a estrela encolhe, o centro esquenta, a fusão acelera e a pressão empurra de volta; se ela incha, esfria e a fusão desacelera. Um termostato.
| centro do Sol | valor |
|---|---|
| temperatura | 15,7 milhões K |
| densidade | 150 g/cm³ |
| pressão | 2,5×10¹⁶ Pa |
Sem a pressão, o Sol colapsaria em ~30 minutos — o tempo de queda livre na sua densidade média.
Massa, luminosidade e tempo de vida
Mais massa, vida mais curta
Uma estrela de 10 M☉ tem dez vezes mais combustível, mas brilha milhares de vezes mais: vive ~30 milhões de anos. O Sol, ~10 bilhões. Uma anã vermelha de 0,2 M☉, trilhões — mais que a idade do Universo.
Toda estrela de baixa massa que já nasceu ainda está viva.
Hertzsprung · 1911 · Russell · 1913
O diagrama H–R
ESO · CC BY 4.0Temperatura (ou cor) no eixo horizontal, crescendo para a esquerda; luminosidade no vertical.
- Sequência principal: a diagonal, onde as estrelas passam 90% da vida queimando hidrogênio no centro.
- Gigantes e supergigantes: frias e enormes, no alto à direita.
- Anãs brancas: quentes e pequenas, embaixo à esquerda.
Quando a estrela esgota o hidrogênio do centro, sobra pouca energia para sustentar o peso das camadas de cima — 90% da estrela.
Quando o hidrogênio do centro acaba
Três coisas ao mesmo tempo
1 · A gravidade começa a vencer
O núcleo de hélio contrai, e a contração volta a queimar hidrogênio numa casca em volta dele.
2 · O núcleo esquenta
Até acender outra reação: ⁴He → ¹²C (triplo-alfa, a 100 milhões K); nas estrelas massivas, ¹²C → ¹⁶O → … → ⁵⁶Fe, em cascas como as de uma cebola.
3 · As camadas de fora incham
A energia empurra o envelope: a estrela cresce e esfria — gigante vermelha. Acima de ~8 M☉, supergigante vermelha.
E quando o fogo acaba?
Dois caminhos, três destinos






O colapso gravitacional
Quando o combustível acaba
Sem reações nucleares, acaba a pressão que elas mantinham: a gravidade vence e a matéria da estrela entra em queda livre.
Quanto tempo leva?
Para a densidade média do Sol, ~30 minutos. Para o núcleo de ferro de uma estrela massiva, ~0,1 s.
Para certas estrelas ainda existe uma salvação: a pressão de degenerescência.
III
Parte três
Estrelas
degeneradas
Quando a fusão para, quem segura a estrela não é mais o calor: é a mecânica quântica.
Estrelas degeneradas
Do tamanho da Terra, ou de uma cidade
Anãs brancas
R ≈ R⊕ · M ≈ M☉ · ρ ≈ 10⁶ g/cm³
Uma colher de chá pesa ~5 toneladas. Sustentada por elétrons degenerados.
Estrelas de nêutrons
NASA's Goddard Space Flight Center · domínio públicoR ≈ 12 km · M ≈ 1,4–2 M☉ · ρ ≈ 10¹⁴–10¹⁵ g/cm³
Uma colher de chá pesa ~500 milhões de toneladas. Sustentada por nêutrons degenerados e pela força nuclear.
Mecânica quântica · 1925 – 1927
Heisenberg e Pauli ao resgate
Bundesarchiv, Bild 183-R57262 · CC BY-SA 3.0 de
Princípio da incerteza · 1927
Confinar uma partícula numa região pequena obriga o momento dela a ser grande.
Princípio de exclusão · 1925
Dois férmions idênticos — elétrons, prótons, nêutrons — não ocupam o mesmo estado quântico.
Juntos: espremer férmions custa energia, mesmo a temperatura zero.
Princípio de exclusão de Pauli
Por que férmions empurram de volta
Cada nível de energia comporta dois elétrons: um com spin para cima, outro para baixo. Os seguintes são obrigados a subir.
Numa caixa de largura Δx, os níveis ficam separados por Δp ≈ ħ/Δx. Com N elétrons, o último tem momento N/2 · Δp: se Ne = 6, o momento máximo é 3Δp.
Apertar a caixa afasta os níveis: os elétrons ganham momento sem precisar de calor. Essa é a pressão de degenerescência.
Chandrasekhar · 1930 · Nobel de 1983
A massa máxima das anãs brancas
AIP Emilio Segrè Visual Archives · atribuição (AIP)Curva: aproximação de Nauenberg (1972) para um gás de elétrons de relatividade arbitrária. Pontos: Sírius B, Procyon B e 40 Eridani B. Quanto mais massa, menor a anã branca — e em MCh o raio vai a zero.
M > MCh
Colapso! Próxima parada: estrelas de nêutrons
No fim de uma estrela massiva, o núcleo de ferro passa de 1,4 M☉ e os elétrons não seguram mais. Em menos de um segundo ele cai de ~3 000 km para ~30 km, os elétrons são capturados pelos prótons e viram nêutrons — e o resto da estrela é lançado numa supernova. No centro fica uma estrela de nêutrons.
Animação artística · NASA’s Goddard Space Flight Center Conceptual Image Lab (animação: Jonathan North) · SVS 20413 · domínio público. Uma anã branca que passa do limite acretando matéria também explode — supernova do tipo Ia — mas não deixa resto.
IV
Parte quatro
Estrelas
de nêutrons
Mais de uma massa solar numa esfera de 12 km, girando até centenas de vezes por segundo, com os campos magnéticos mais fortes do Universo.
Supernova de 1054 · 6 500 anos-luz
A Nebulosa do Caranguejo
NASA, ESA, J. Hester & A. Loll · domínio público1054
registrada por astrônomos chineses: visível de dia por 23 dias
33 ms
período do pulsar no centro: 30 voltas por segundo
4×10³⁸ erg/s
perdidos pela rotação, que se desacelera — é isso que ilumina a nebulosa inteira
Cambridge · 28 de novembro de 1967
O primeiro pulsar: “LGM-1”
Roger W Haworth · CC BY-SA 2.0
W. T. Sullivan III / NRAO/AUI · CC BY 4.0
Bill Thompson · CC BY-SA 4.0Bell notou um “ruído” que voltava no registro em papel do radiotelescópio: pulsos a cada 1,337 s, regulares como um relógio. Apelido: LGM-1, de Little Green Men — homenzinhos verdes. Era uma estrela de nêutrons girando.
Teoria do pulsar
O que se mede, e o que se deduz
| observável | expressão |
|---|---|
| período | P |
| idade característica | tc = P/2Ṗ |
| campo magnético | B = (3Ic³PṖ/8π²R⁶)1/2 |
| energia de rotação perdida | Ėrot = −4π²IṖ/P³ |
Estrela de nêutrons canônica
M = 1,4 M☉ · R = 10 km · I = 10⁴⁵ g cm²
B = 3,2×10¹⁹ (PṖ)1/2 G
|Ėrot| = 3,9×10⁴⁶ Ṗ/P³ erg/s
Só se mede P e Ṗ. O resto vem de supor um dipolo magnético girando — as retas do diagrama.
SGRs e AXPs
Os magnetares
| pulsares comuns | SGRs / AXPs | |
|---|---|---|
| P | 10⁻³ – 10 s | 2 – 12 s |
| Ṗ | ~10⁻¹⁵ s/s | 10⁻¹³ – 10⁻¹⁰ s/s |
| LX | ~10³⁰–10³³ erg/s | 10³² – 10³⁶ erg/s |
| tc | > 10⁶ anos | ~10³ – 10⁴ anos |
SGR: Soft Gamma Repeaters. AXP: Anomalous X-ray Pulsars. Duas classes que se revelaram uma só: no catálogo ATNF, 25 magnetares têm período medido.
- Lentos: P ≈ 2–12 s, para uma estrela de nêutrons canônica (1,4 M☉, 10 km, 10⁴⁵ g cm²).
- Brilham demais em raios X: LX > Ėrot. A rotação não paga a conta.
- Quem paga, no modelo padrão: campos magnéticos gigantes, B > 10¹⁴ G — acima do campo crítico quântico, 4,4×10¹³ G.
27 de dezembro de 2004 · SGR 1806−20
Um flare gigante liberou ~10⁴⁶ erg em 0,2 s — mais do que o Sol emite em 100 mil anos. No pico, ~7×10⁴⁶ erg/s: uns 20 trilhões de sóis. Perturbou a ionosfera da Terra, a ~28 mil anos-luz.
Atividades transientes
Um magnetar, girando
| evento | energia |
|---|---|
| surtos curtos (~0,1 s) | 10³⁹ – 10⁴¹ erg |
| outbursts (meses) | 10⁴¹ – 10⁴³ erg |
| flares gigantes | 10⁴⁴ – 10⁴⁶ erg |
As linhas de campo, ancoradas na crosta, se torcem com o tempo. Quando a crosta não aguenta a tensão, ela racha — um estrelamoto — e a energia magnética sai de uma vez.
Flares gigantes na Galáxia e nas Nuvens de Magalhães: 1979, 1998 e 2004.
Uma mancha quente na superfície
A luz faz curva: 85% da superfície à vista
A maior densidade do Universo
Forjado no núcleo de uma estrela de nêutrons
“Thor, filho de Odin, meu herdeiro, meu primogênito. Desde muito cedo lhe foi confiado o poderoso martelo Mjölnir, forjado no coração de uma estrela moribunda.”
E se fosse forjado no núcleo de uma estrela de nêutrons, ρ = 10¹⁴ g/cm³? Cabeça de 17,5 × 26 × 18 cm:
Pesquisa · equações de estado modernas
Massa e raio com física nuclear de verdade

Uma estrela de nêutrons não é uma bola de nêutrons livres: a pressão vem da força nuclear, descrita por modelos relativísticos de campo médio.
- Cada equação de estado dá uma curva M(R) — e uma massa máxima, entre ~2 e 2,8 M☉.
- Com essas curvas, M, R e o momento de inércia I deixam de ser os valores canônicos e passam a ser calculados.
Figuras desta seção: R. C. R. de Lima e colaboradores. Coelho, Cáceres, de Lima, Malheiro, Rueda & Ruffini, A&A 599, A87 (2017).
Pesquisa · quem paga o brilho?
Magnetares movidos a rotação?

Com I(M) e R(M) realistas, Ėrot muda. Se LX/Ėrot < 1, a rotação basta: não é preciso campo gigante.
Conclusão: 9 (+3?) movidos a rotação
LX/Ėrot < 1: Swift J1834.9−0846, PSR J1846−0258, 1E 1547.0−5408, SGR J1745−2900, XTE J1810−197, PSR J1622−4950, SGR 1627−41, SGR 0501+4516, CXOU J171405.7−381031.
LX/Ėrot ~ 1: SGR 1900+14, SGR 0418+5729, Swift J1822.3−1606.
Descoberto em 25/04/2013 · a 0,1 pc de Sgr A*
SGR J1745−2900, o magnetar do centro galáctico
| início | fração pulsada | kTBB (keV) | RBB (km) | L (10³⁵ erg/s) |
|---|---|---|---|---|
| 12/05/2013 | ~0,38 | 0,88 ± 0,01 | 2,52 ± 0,09 | 4,9 ± 0,5 |
| 8 a 14/10/2016 | ~0,55 | 0,64 ± 0,03 | 0,78 ± 0,11 | 0,13 ± 0,02 |
Chandra, 0,3–8 keV. Coti Zelati et al., MNRAS 471, 1819 (2017): três anos e meio do decaimento do outburst.
3,76 s
período
~5×10³⁵ erg/s
no surto de descoberta (Swift)
A mancha quente encolheu (de 2,5 para 0,8 km) e esfriou, e a fração pulsada subiu. Dá para explicar isso com uma estrela de nêutrons de verdade?
Versão publicada desta análise: de Lima, Coelho, Pereira, Rodrigues & Rueda, ApJ 889, 165 (2020).
SGR J1745−2900
Duas verificações


Turolla & Nobili 2013 · Beloborodov 2002
Modelo de fluxo pulsado
i = arccos(r̂·ĉ) · j = arccos(r̂·l̂)
- Manchas circulares de tamanho arbitrário, em qualquer lugar da superfície (Turolla & Nobili 2013).
- M e R vêm das equações de estado (GM1, TM1, NL3).
- Exterior de Schwarzschild: a rotação é lenta (P ≈ 2–10 s) e seus efeitos na métrica são desprezados.
Pesquisa · o código
O que o código calcula
Saída principal
- mapa de frações pulsadas no plano (i, j);
- curva de luz: fluxo normalizado pela fase de rotação.
Cálculos periféricos
- abertura angular da calota polar (cilindro de luz);
- ângulo de Beloborodov e área visível da estrela;
- fração pulsada máxima possível.
Validade
Erro < 3% para R > 3Rs (aqui, R/Rs = 3,38), com Rs = 2GM/c².
| variável | definição | origem |
|---|---|---|
| M, R | massa e raio | equação de estado |
| Ns, θc, T | número, semiabertura e temperatura das manchas | ajuste de corpo negro |
| θd | distância angular entre as manchas | fração pulsada |
| i, j | ângulos de visada | PF e perfil do pulso |
Classes de Beloborodov (2002)
I · a mancha antípoda nunca aparece, e a primária é vista o tempo todo. II · a primária sempre, e a antípoda por algum tempo. III · a primária some por uma fração do período. IV · as duas são vistas o tempo todo.
SGR J1745−2900 · 2016
Fração pulsada e perfil de luz


V
Parte cinco
Buracos
negros
Quando nem os nêutrons seguram, a estrela cai para dentro do próprio horizonte — e some do Universo visível.
Tolman · Oppenheimer · Volkoff · 1939
Mmáx ≈ 2 M☉ — e se passar?
NASA/CXC/M. Weiss · domínio públicoEstrelas de nêutrons também têm massa máxima. Acima de ~2–2,3 M☉, nem a pressão dos nêutrons nem a força nuclear seguram a estrela.
2,08 M☉
PSR J0740+6620, a mais pesada medida com precisão
~21 M☉
Cygnus X-1, o primeiro buraco negro aceito (1972)
Mas e se a estrela de nêutrons receber mais massa — acretando gás de uma companheira — e passar de Mmáx?
O colapso final
Nada pode deter o colapso
Nenhuma força conhecida segura a estrela.
E se existir alguma física que ainda não conhecemos, forte o bastante para frear o colapso?
Não adianta: quando o horizonte de eventos se forma, já é tarde. Lá dentro, todo futuro aponta para o centro.
1783 – 2019
Uma breve história dos buracos negros
1783
Michell: “estrelas escuras”, de onde a luz não escapa
1796
Laplace chega à mesma ideia
1916
Schwarzschild: a primeira solução exata da RG
1935
Eddington: “deveria haver uma lei da Natureza…”
1939
Oppenheimer & Snyder: o colapso, calculado
1963
Kerr: buracos negros que giram
1967
Wheeler populariza o nome “buraco negro”
2019
EHT: a primeira imagem, de M87*
1796 · Pierre-Simon Laplace
Uma estrela escura
Jean-Baptiste Paulin Guérin · domínio públicoPela física de Newton, a luz não escaparia de um objeto suficientemente massivo e compacto.
Na Terra, vesc = 11,18 km/s. Para qual r a velocidade de escape seria a da luz?
Terra: 8,9 mm. Sol: 2,95 km.
Dezembro de 1915 · front russo
Um mês depois de Einstein

F. Schmutzer · domínio públicoPraticamente um mês depois de Einstein apresentar a Relatividade Geral (25/11/1915), Schwarzschild — servindo como artilheiro no front russo — encontrou uma solução analítica exata das equações.
“Li o seu artigo com o maior interesse. Eu não esperava que se pudesse formular a solução exata do problema de forma tão simples. Gostei muito do seu tratamento matemático do assunto.”
Schwarzschild morreu em maio de 1916, de uma doença contraída no front.
Esférico, sem carga, sem rotação
A primeira solução exata já era um buraco negro
O que nenhum deles sabia
A solução era completa: além do exterior de uma estrela, descrevia um buraco negro esférico, neutro e sem rotação — o buraco negro de Schwarzschild.
Até então
Einstein só tinha procurado soluções aproximadas — o formalismo pós-newtoniano — e com elas explicado o desvio da luz pelo Sol e a precessão de Mercúrio.
Foram precisos uns 50 anos para a comunidade aceitar que aquilo existia de verdade.
EHT Collaboration · CC BY 4.0Royal Astronomical Society · 11 de janeiro de 1935
Eddington contra Chandrasekhar
Bain News Service · domínio públicoUm dos primeiros a entender a Relatividade Geral, Eddington percebeu na hora: se Chandrasekhar estivesse certo sobre o limite de massa, a formação de buracos negros seria inevitável para estrelas massivas.
“Acho que deveria haver uma lei da Natureza para impedir que uma estrela se comporte desse jeito absurdo!”
Chandrasekhar lamentaria depois que se passaram quase trinta anos até o significado do seu resultado ser reconhecido.
K. C. Wali, Chandra: a biography of S. Chandrasekhar (1991).

1939 · 1963 · 1967
O colapso, a rotação e o nome
U.S. Department of Energy · domínio público
Bengt Nyman · CC BY-SA 4.0
Emielke · CC BY-SA 3.0A métrica de Schwarzschild
Três cortes de uma mesma fórmula
Δt = Δθ = Δφ = 0
Δrp = (1 − 2GM/c²r)−1/2 Δr
Distâncias radiais medidas por uma régua: maiores que Δr.
Δr = Δθ = Δφ = 0
Δτ = (1 − 2GM/c²r)1/2 Δt
O tempo de um relógio parado: anda mais devagar que o de longe.
Δt = Δr = 0
ΔS = r [(Δθ)² + sin²θ (Δφ)²]1/2
A parte angular é a de sempre: a distância entre dois pontos na superfície da Terra (θ = 90° − latitude).
Distância própria
A régua no poço
- r é a coordenada de um observador no infinito: a circunferência dividida por 2π.
- Δrp é a distância que um observador local mede com a régua.
- As distâncias são maiores do que seriam num espaço plano: entre as esferas de circunferências 2πr₁ e 2πr₂ há mais que r₂ − r₁.
- O fator (1 − rs/r)−1/2 diverge em rs, mas a distância até o horizonte é finita: de 3rs até rs são 3,6 rs, não 2.
À esquerda, o paraboloide de Flamm: a fatia equatorial (t constante) desenhada como superfície, com a mesma geometria.
O horizonte de eventos
O raio de Schwarzschild
Onde o fator (1 − 2GM/c²r) da métrica se anula. Não há nada ali — nenhuma superfície, nenhuma parede: é uma fronteira causal. O que entra não sai.
| objeto | massa | RS |
|---|---|---|
| Terra | 6×10²⁴ kg | 8,9 mm |
| Sol | 1 M☉ | 2,95 km |
| estrela de nêutrons (raio 12 km) | 1,4 M☉ | 4,1 km |
| Cygnus X-1 | 21 M☉ | 62 km |
| Sgr A* | 4,3×10⁶ M☉ | 12,7 milhões km · 18 R☉ |
| M87* | 6,5×10⁹ M☉ | 1,9×10¹⁰ km · 128 UA |
Tempo próprio
O tempo no poço
- O relógio fundo no poço anda mais devagar, visto de longe — e não é ilusão: ao voltar, ele marca menos tempo.
- GPS: +45 μs/dia pela altitude, −7 μs/dia pela velocidade dos satélites. Sem a correção, erro de ~10 km por dia.
- Na superfície de uma estrela de nêutrons: Δτ/Δt ≈ 0,8 — perdem-se ~12 minutos por hora.
- No horizonte, Δτ/Δt → 0.
O que acontece no horizonte?
Visto de longe, o tempo congela
Um observador no infinito veria o tempo congelar em RS. Isso significa que a luz para?
Não! Significa que ela fica aprisionada. Para fótons Δs² = 0; se Δτ → 0, os termos espaciais também se anulam (Δr = Δθ = Δφ = 0): o fóton não sai daquela região.
Fótons: nossos relógios naturais
Uma onda de frequência f é um relógio que bate 1/Δt vezes por segundo:
Quem cai não percebe nada de especial ao cruzar o horizonte.
Além do horizonte
Todo futuro aponta para o centro
A matéria deve se mover dentro dos cones de luz.
- Longe, o cone é o de sempre: dá para ir para fora ou para dentro.
- Perto do horizonte, ele tomba para dentro, mas ainda deixa uma saída.
- No horizonte, a borda de fora fica vertical: a luz “para fora” fica parada.
- Dentro, os dois lados do cone apontam para r menor: caminhar em direção ao futuro significa caminhar para o centro.
Coordenadas de Eddington–Finkelstein: t̃ = t + rs ln|r/rs − 1|; a luz que cai segue retas a 45°.
O centro da Via Láctea · 27 000 anos-luz
Sagittarius A*: estrelas em volta do nada
4,3×10⁶ M☉
massa no centro
16 anos
período de S2
S2 passa a ~120 UA do centro a ~7 700 km/s, 2,6% de c. Em 2018 e 2020 o VLT mediu nela o desvio para o vermelho gravitacional e a precessão de Schwarzschild.
ESO/Mahdi Zamani · CC BY-SA 4.0
BorderlineRebel · CC BY-SA 4.0Nobel de 2020, com Roger Penrose.
Event Horizon Telescope · 2019 e 2022
As sombras
M87* · 2019 · 6,5 bilhões de M☉ · 55 milhões de anos-luzEHT Collaboration · CC BY 4.0
Sgr A* · 2022 · 4,3 milhões de M☉ · 27 mil anos-luzEHT Collaboration · CC BY 4.0O anel tem ~5 RS de diâmetro: é a esfera de fótons, a 1,5 RS, vista através da lente do próprio buraco negro — diâmetro da sombra = 2√27 GM/c² ≈ 5,2 RS.
Geodésicas de Schwarzschild
Como a luz se curva
- b > 3√3 GM/c² ≈ 2,6 RS: a luz é desviada e escapa.
- b = 2,6 RS: órbita instável na esfera de fótons, r = 1,5 RS.
- b < 2,6 RS: capturada.
O termo à direita é a correção da Relatividade Geral. Sem ele, a luz andaria em linha reta.
Geodésicas de Kerr · 1963
O buraco negro que gira
- A rotação arrasta o espaço-tempo em volta (efeito Lense–Thirring).
- A luz que viaja no sentido da rotação chega mais perto antes de ser capturada: a órbita de fótons vai de 1,5 RS até 0,5 RS quando a → M.
- Contra a rotação, a órbita se afasta, até 2 RS.
- A captura fica assimétrica: a sombra se desloca e achata de um lado.
Geodésicas nulas de Kerr em Boyer–Lindquist, integradas no tempo de Mino.
r = 0
A singularidade
r = RS não é singular
Ali a métrica parece explodir, mas é só uma escolha ruim de coordenadas — como a longitude no polo Norte. Quem cai atravessa o horizonte sem notar, e a curvatura lá é finita.
r = 0 é
A curvatura diverge — o invariante de Kretschmann vai como 48G²M²/c⁴r⁶ — e as forças de maré esticam qualquer coisa. A Relatividade Geral prevê o próprio limite: ali deve entrar uma teoria quântica da gravidade, que ainda não temos.
Recapitulando
Três massas decidem o fim
MJ
Jeans
Acima dela, uma nuvem fria colapsa, se fragmenta e acende estrelas. Diminui à medida que a nuvem fica densa.
1,44 M☉
Chandrasekhar
Acima dela, os elétrons degenerados não seguram: não existe anã branca, e o núcleo de ferro colapsa.
~2,2 M☉
Tolman–Oppenheimer–Volkoff
Acima dela, nem os nêutrons seguram: forma-se um horizonte, e a estrela vira buraco negro.
A vida inteira de uma estrela é a gravidade de um lado e, do outro, o calor, a fusão e — no fim — a mecânica quântica.
Créditos das imagens
Fotos e figuras de uso livre
Albert Einstein — Ferdinand Schmutzer / Adam Cuerden · domínio público
Karl Schwarzschild — autor desconhecido · domínio público
M87* (EHT) — Event Horizon Telescope Collaboration · CC BY 4.0
Sgr A* (EHT) — EHT Collaboration · CC BY 4.0
Nebulosa do Caranguejo — NASA, ESA, J. Hester and A. Loll (Arizona State University) · domínio público
O Sol (SDO) — NASA/SDO (AIA) · domínio público
Diagrama de Hertzsprung–Russell — ESO · CC BY 4.0
Wolfgang Pauli — autor desconhecido · CC BY 4.0
Animação da supernova (vídeo) — NASA's Goddard Space Flight Center Conceptual Image Lab (Jonathan North) · domínio público
Pilares da Criação, Webb 2022 — NASA, ESA, CSA, STScI; image processing: Joseph DePasquale, Anton M. Koekemoer, Alyssa… · domínio público
Pilares da Criação, Hubble 2014 — NASA, ESA, Hubble Heritage Team (STScI/AURA) · domínio público
“Penhascos Cósmicos”, Nebulosa de Carina — NASA, ESA, CSA, STScI · domínio público
Nebulosa de Órion — NASA, ESA, M. Robberto (Space Telescope Science Institute/ESA) and the Hubble Space… · domínio público
Disco de HL Tauri — ALMA (ESO/NAOJ/NRAO) · CC BY 4.0
Ivy Mike, 1952 — National Nuclear Security Administration / Nevada Site Office · domínio público
Betelgeuse — ESO/M. Montargès et al. · CC BY 4.0
Nebulosa do Anel (M57) — ESA/Webb, NASA, CSA, M. Barlow, N. Cox, R. Wesson · CC BY 4.0
Werner Heisenberg — Bundesarchiv, Bild 183-R57262 / autor desconhecido · CC BY-SA 3.0 de
Subrahmanyan Chandrasekhar — AIP Emilio Segrè Visual Archives, Gift of Kameshwar Wali · atribuição (AIP)
Jocelyn Bell, 1967 — Roger W Haworth · CC BY-SA 2.0
Antony Hewish — Woodruff T. Sullivan III / NRAO/AUI Archives (NRAO/AUI/NSF) · CC BY 4.0
Pierre-Simon Laplace — Jean-Baptiste Paulin Guérin · domínio público
Arthur Eddington — Bain News Service (Library of Congress) · domínio público
J. Robert Oppenheimer — autor desconhecido (U.S. Department of Energy) · domínio público
John A. Wheeler — Emielke · CC BY-SA 3.0
Roy Kerr — Bengt Nyman · CC BY-SA 4.0
Cygnus X-1 (ilustração) — NASA/CXC/M. Weiss · domínio público
O centro da Via Láctea — ESO · CC BY 4.0
Andrea Ghez — BorderlineRebel · CC BY-SA 4.0
Reinhard Genzel — ESO/Mahdi Zamani · CC BY-SA 4.0
Estrela de nêutrons sobre Manhattan — NASA's Goddard Space Flight Center · domínio público
Registro de CP 1919, 1967 — Bill Thompson (Billthom) · CC BY-SA 4.0
Cassiopeia A — X-ray: NASA/CXC/SAO; Optical: NASA/ESA/STScI; IR: NASA/ESA/CSA/STScI/Milisavljevic et… · domínio público
Figuras da pesquisa (Parte IV) — R. C. R. de Lima e colaboradores; Coelho et al., A&A 599, A87 (2017); de Lima et al., ApJ 889, 165 (2020)
Diagrama P–Ṗ — catálogo de pulsares ATNF 2.8.1 (Manchester et al., AJ 129, 1993, 2005)
Órbitas em torno de Sgr A* — Gillessen et al., ApJ 837, 30 (2017); GRAVITY Collaboration, A&A 657, L12 (2022)
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