II Escola Brasileira de Neutrinos
Sexta · 02 · 10 · 2026
νe νμ ντ

Seminário

Neutrinos em
espaço-tempo curvo

O que acontece com a oscilação de sabor quando a viagem segue uma geodésica — e não uma reta.

Roteiro

Três partes, uma pergunta

I

Espaço-tempo curvo

Einstein, Schwarzschild, objetos compactos: onde só a Relatividade Geral descreve bem, e o que a métrica faz com um neutrino.

II

A supernova, e os neutrinos no poço

Como a estrela colapsa, de onde vem a onda de choque, e o que acontece com o sabor quando a emissão é dentro de um poço gravitacional fundo.

III

GHOST: resultados

A frente de choque na ressonância MSW: o critério, o custo em PH, o viés no DUNE e onde procurar.

Premissa · Wolfenstein 1978 · Mikheyev & Smirnov 1985

MSW: um problema de dois níveis

H = ½ (V − Δ cos 2θΔ sin 2θΔ sin 2θ−(V − Δ cos 2θ))hamiltoniano efetivo, dois sabores
Δ = Δm²2E
V(r) = √2 GF ne(r)

A ressonância acontece quando o termo diagonal se anula:

V = Δ cos 2θ
Hres ~ ½ (0Δ sin 2θΔ sin 2θ0)só fora da diagonal: autoestados 50/50 — mistura máxima

Um cruzamento evitado com evolução adiabática — e a ponte para supernovas, onde o perfil ne(r) varre a ressonância.

Adiabaticidade · 1

Na base que acompanha a matéria

Passe da base de sabor para a base instantânea de matéria:

(νeνx) = U(θm(x)) (ν1mν2m)

Como U depende de x, a equação de Schrödinger ganha um termo:

i ddx (ν1mν2m) = [ (−Δm/200+Δm/2) − i U†dUdx ] (ν1mν2m)
−i U†dUdx ~ (0i dθm/dx−i dθm/dx0)

Ponte com o slide anterior: U(θm) diagonaliza o H de lá:

Δm cos 2θm = Δ cos 2θ − V  ·  Δm sin 2θm = Δ sin 2θ

O slide anterior dá o hamiltoniano num ponto; diagonalizá-lo define θm e Δm; aqui perguntamos o que acontece quando θm muda ao longo do caminho.

O gradiente da densidade reaparece como um termo fora da diagonal na base dos autoestados instantâneos.

Uma competição direta:

Δm  contra  |dθm/dx|

Condição adiabática:

|dθm/dx| ≪ Δm

Mais fundamental que “a densidade varia devagar”: o que importa é o ritmo da rotação da base comparado ao gap.

Adiabaticidade · 2

Por que a ressonância é o lugar crítico

Na ressonância, V = Δ cos 2θ e θm = π/4. A separação entre os níveis é mínima:

Δmres = Δ sin 2θ

Um cruzamento evitado. Longe dela os níveis estão bem separados; perto, ficam o mais próximos possível — e é ali que a base gira mais rápido (área rosa).

É onde fica mais fácil a transição ν₁ᵐ ↔ ν₂ᵐ. Por isso a adiabaticidade se avalia na ressonância.

Adiabaticidade · 3

O parâmetro de adiabaticidade γ e Landau–Zener

γres = Δm²2E sin² 2θcos 2θ |d ln nedx|−1resparâmetro de adiabaticidade = gap ÷ giro da base, na ressonância
Pjump ≃ e−πγres/2probabilidade de pular de ramo (Landau–Zener, perfil quase linear)
se…γPjumppor quê
energia E maior↓↑Δ = Δm²/2E cai: gap menor
Δm² maior↑↓gap maior
mistura θ maior (até 45°)↑↓gap mínimo Δ sin 2θ maior
densidade varia devagar↑↓escala |d ln ne/dx|⁻¹ grande: a base gira devagar
frente de choque (degrau)→ 0máx.escala → 0: salto súbito

γ ≫ 1 → adiabático: segue o ramo · γ ≲ 1 → pula de ramo

A ressonância determina onde os autoestados se misturam maximamente; a adiabaticidade determina se o neutrino acompanha esses autoestados enquanto eles mudam.

Adiabaticidade · 4 · supernova M15-7b

A frente de choque atravessa a ressonância

I

Parte um

Espaço-tempo
curvo

Gravidade não é força: é geometria. Longe das estrelas, a diferença é uma correção minúscula. Perto de um objeto compacto, é tudo.

Einstein · 1915Schwarzschild · 1916objetos compactosondas gravitacionaiscolapsares
Eclipse de 29 de maio de 1919 · ESO / Landessternwarte Heidelberg · CC BY 4.0

25 de novembro de 1915

Einstein e suas equações de campo

Albert Einstein, 1921F. Schmutzer · domínio público
Albert Einstein1921
Gμν = 8πGc4 Tμνcurvatura = conteúdo de energia e momento
d²xμdλ² + Γμαβ dxαdλ dxβdλ = 0geodésica
ds² = gμν dxμdxνa métrica é o campo
“O espaço-tempo diz à matéria como se mover; a matéria diz ao espaço-tempo como se curvar.”
John A. Wheeler

Os testes clássicos

Sobral, 1919: a luz faz curva

Placa do eclipse de 1919ESO / Landessternwarte Heidelberg-Königstuhl / Dyson, Eddington & Davidson · CC BY 4.0
efeitoRG prevê
periélio de Mercúrio (1915)43″ / século
desvio da luz rasante ao Sol (1919)1,75″
desvio para o vermelho, Pound–Rebka (1959)2,5×10⁻¹⁵ em 22,5 m
atraso de Shapiro (1964)~200 μs
relógios do GPS+38 μs / dia

Expedição de Sobral (CE): 1,98 ± 0,12″. Príncipe: 1,61 ± 0,30″. O céu do Nordeste confirmou Einstein.

1859 – 1915 · o periélio de Mercúrio

Mercúrio não fecha a órbita

avanço do periéliopor século
observado (relativo às estrelas)574″
outros planetas, por Newton531″
sobra sem explicação43″
Δφ = 6πGM☉c² a(1 − e²) = 0,104″ por órbitaRG · Einstein, novembro de 1915 · 415 órbitas por século → 43,0″

Le Verrier encontrou a sobra em 1859 e propôs um planeta escondido, Vulcano. Nunca foi achado. Einstein obteve os 43″ sem nenhum parâmetro ajustável.

“Por alguns dias, fiquei fora de mim de excitação alegre.”
Einstein a Ehrenfest, janeiro de 1916

1959 · Pound & Rebka · torre Jefferson, Harvard

A luz perde energia ao subir

Raios γ de 14,4 keV do ⁵⁷Fe (efeito Mössbauer). Pound & Rebka, PRL 4, 337 (1960): ~10%; Pound & Snider, Phys. Rev. 140, B788 (1965): ~1%. A cada 12 s fonte e absorvedor trocam de lugar, como no experimento.

O espaço em fluxo · Hamilton & Lisle 2008

O espaço cai · estrela de nêutrons

Schwarzschild em Gullstrand–Painlevé · 1,4 M☉ · R = 12 kmarraste a rede para girar

Cada nó é um referencial local em queda livre, solto do repouso lá longe. Nas coordenadas de Gullstrand–Painlevé o espaço é plano e escoa para dentro com a velocidade de escape, v = √(2GM/r): a rede é carregada pelo fluxo. Perto da massa os nós correm mais — as linhas se curvam, as células esticam na radial e apertam nas laterais: a maré. Na superfície da estrela o fluxo já corre a 0,59 c.

O espaço em fluxo · Hamilton & Lisle 2008

O espaço cai · buraco negro

Schwarzschild em Gullstrand–Painlevé · 6 M☉ · horizonte em 17,7 kmarraste a rede para girar

A mesma rede, agora sem superfície para parar a queda. No horizonte o fluxo corre exatamente a c: um sinal de luz apontado para fora só consegue ficar parado ali, e por dentro dele é arrastado para dentro. Por isso nada sai. A linha tracejada é o ritmo de um relógio mantido parado — ele vai a zero no horizonte, onde ficar parado já é impossível.

Dezembro de 1915 · front russo

Schwarzschild e a primeira solução exata

Karl Schwarzschild
Karl Schwarzschild1873 – 1916
ds² = −(1 − rsr) c²dt² + dr²1 − rs/r + r²dΩ²rs = 2GM/c² · vale fora de qualquer corpo esférico sem rotação

1 rs

horizonte de eventos

1,5 rs

esfera de fótons

3 rs

ISCO: última órbita estável

2,95 km

rs do Sol (Terra: 8,9 mm)

Escreveu a Einstein em 22 de dezembro de 1915, servindo como artilheiro. Morreu em maio de 1916.

O que nos interessa da métrica

A curvatura faz duas coisas com um neutrino

1 · Muda a energia

Um neutrino emitido em r com energia local E chega ao infinito com

E∞ = E √(1 − rs/r)redshift gravitacional, rs = 2GM/c²

O espectro inteiro desliza para baixo, e o relógio da fonte anda mais devagar visto de fora.

2 · Encurva o caminho

A trajetória é uma geodésica, não uma reta. Perto de um objeto compacto o desvio é grande, e caminhos diferentes podem ligar a mesma fonte ao mesmo detector.

Fótons e neutrinos seguem a mesma geometria, o que a SN 1987A confirmou a ~0,5%.

As duas importam porque, numa supernova, a emissão é fundo no poço e a detecção é longe dele.

E há uma terceira, mais sutil

A fase de oscilação é acumulada ao longo da geodésica, com o tempo próprio da partícula. Em espaço-tempo plano ela vira o familiar Δm²L/4E; em métrica curva, não.

Voltamos a isso em três laminas.

Nada disso é opcional quando a densidade que define a ressonância MSW é medida no referencial local e o detector está a 10 kpc.

Quanto, em números

O que chega não é o que saiu

ondeRu = rs/Rz
neutrinosfera, 1,4 M☉30 km0,1380,077
neutrinosfera mais fria50 km0,0830,044
estrela de nêutrons fria12 km0,3450,235
disco de colapsar, 3 M☉3 rs0,3330,225

Na fase de acreção, o espectro que o DUNE vê saiu ~8% mais energético do que chega.

E o intervalo de tempo também: o que a estrela vive em 1 s, nós medimos em 1,08 s. A curva de luz de neutrinos é lida com o relógio errado se a métrica for ignorada.

Por que isso importa para a ressonância

A condição MSW envolve a energia local. Usar a energia detectada no lugar dela desloca a densidade de ressonância por ~8%, e portanto desloca o raio onde a conversão acontece.

u e z calculados com rs = 2GM/c²; z = (1 − u)−1/2 − 1.

Dashboard · geodésicas nulas de Schwarzschild

Luz e neutrinos perto de um buraco negro

interativo · RK4 no navegadoru″ + u = (3/2) rs u², u = 1/r

Todo raio que chega com b < 3√3 M cai. Logo acima disso, ele dá voltas em torno da esfera de fótons antes de escapar.

Um neutrino ultrarrelativístico segue, em primeira ordem, a mesma geodésica nula. A massa entra como correção ∝ m²/E² — e é exatamente essa correção que carrega a fase de oscilação.

Compacidade · 1/8

Onde a RG deixa de ser correção

1/8 · Terra

z = (1 − rs/R)−1/2 − 1 · relógio parado na superfície comparado ao infinito · desvio calculado pela integral exata da órbita (fraco: 2rs/R).

Compacidade · 2/8

Onde a RG deixa de ser correção

2/8 · Sol

z = (1 − rs/R)−1/2 − 1 · relógio parado na superfície comparado ao infinito · desvio calculado pela integral exata da órbita (fraco: 2rs/R).

Compacidade · 3/8

Onde a RG deixa de ser correção

3/8 · Sirius B

z = (1 − rs/R)−1/2 − 1 · relógio parado na superfície comparado ao infinito · desvio calculado pela integral exata da órbita (fraco: 2rs/R).

Compacidade · 4/8

Onde a RG deixa de ser correção

4/8 · proto-estrela de nêutrons

z = (1 − rs/R)−1/2 − 1 · relógio parado na superfície comparado ao infinito · desvio calculado pela integral exata da órbita (fraco: 2rs/R).

Compacidade · 5/8

Onde a RG deixa de ser correção

5/8 · estrela de nêutrons

z = (1 − rs/R)−1/2 − 1 · relógio parado na superfície comparado ao infinito · desvio calculado pela integral exata da órbita (fraco: 2rs/R).

Compacidade · 6/8

Onde a RG deixa de ser correção

6/8 · ISCO

z = (1 − rs/R)−1/2 − 1 · relógio parado na superfície comparado ao infinito · desvio calculado pela integral exata da órbita (fraco: 2rs/R).

Compacidade · 7/8

Onde a RG deixa de ser correção

7/8 · esfera de fótons

z = (1 − rs/R)−1/2 − 1 · relógio parado na superfície comparado ao infinito · desvio calculado pela integral exata da órbita (fraco: 2rs/R).

Compacidade · 8/8

Onde a RG deixa de ser correção

8/8 · horizonte

z = (1 − rs/R)−1/2 − 1 · relógio parado na superfície comparado ao infinito · desvio calculado pela integral exata da órbita (fraco: 2rs/R).

Objetos compactos

O zoológico onde só a RG descreve

Nebulosa do CaranguejoNASA, ESA, J. Hester & A. Loll · DP
Caranguejo — resto da supernova de 1054, com um pulsar de 33 ms no centro.
Ilustração de estrela de nêutronsNASA/CXC/M. Weiss · DP
Estrela de nêutrons — 1,4 M☉ em 12 km, densidade central de vários 10¹⁴ g/cm³.
Sombra do buraco negro M87*EHT Collaboration · CC BY 4.0
M87* (EHT, 2019) — 6,5 bilhões de M☉; anel de 42 μas.
Sagittarius A*EHT Collaboration · CC BY 4.0
Sgr A* (EHT, 2022) — 4 milhões de M☉, no centro da Via Láctea.

Gravidade forte, medida

Pulsares binários e ondas gravitacionais

Deslocamento do periastro do PSR B1913+16Inductiveload · domínio público
PSR B1913+16 (Hulse & Taylor, 1974; Nobel 1993): a órbita encolhe exatamente como a emissão de ondas gravitacionais prevê.
GW150914 medido pelo LIGOLIGO/Virgo · CC BY 3.0
GW150914: 36 + 29 M☉ → 62 M☉; três massas solares viraram ondas gravitacionais (Nobel 2017).

Stodolsky 1979 · Fornengo, Giunti, Kim & Song 1997

A fase ao longo da geodésica

Φk = ∫ pμ(k) dxμfase covariante: vale em qualquer métrica
Φk = mk22E∞ ∫ dr√(1 − b²(1 − rs/r)/r²)Schwarzschild, em primeira ordem em m², ao longo da geodésica nula

Dedução em uma linha: com E e J = Eb conservados, Et − Jφ − ∫prdr cancela tudo, menos o termo de massa.

1 · Radial: a gravidade “se esconde”

Φ = Δm²(rB − rA)/2E∞, a mesma forma do caso plano. Mas em grandezas locais (distância própria ∫dr/√B, energia Elocal) a fórmula plana erra.

2 · Não radial: o caminho importa

A fase depende de b. Caminhos diferentes entre a mesma fonte e o mesmo detector acumulam fases diferentes.

3 · Muitos caminhos: interferência

Numa lente, a diferença de fase entre caminhos é ∝ mk², não só Δm²: a gravidade dá acesso à massa absoluta.

Dashboard · uma geodésica que nasce na fonte

Redshift, desvio e fase desde a emissão

automático · integral exata de Fornengo et al. ao longo da órbita

II

Parte dois

Neutrinos em
espaço-tempo curvo

Eles nascem dentro do poço. Atravessam regiões que a luz não atravessa. E chegam aqui com uma fase que lembra o caminho.

mensageirosfase covariantedesvio e redshiftlentesDUNE
Ilustração de GRB · NASA/CXC/M. Weiss · domínio público

23 de fevereiro de 1987 · Grande Nuvem de Magalhães

SN 1987A: neutrinos antes da luz

SN 1987A pelo HubbleESA/Hubble & NASA · CC BY 4.0

11

Kamiokande-II

8

IMB

5

Baksan

Em ~13 s, a 168 000 anos-luz. Chegaram horas antes da luz: os fótons ficam presos no envelope, os neutrinos não. 99% dos ~3×10⁵³ erg do colapso saem em neutrinos.

Teste de gravitação com duas dúzias de eventos

Neutrinos e fótons sofreram o mesmo atraso de Shapiro no potencial da Galáxia (meses) — dentro de ~0,5% (Krauss & Tremaine; Longo, 1988). Neutrinos caem como a luz.

Anatomia · supernova de colapso de núcleo

As fases, e quando cada uma acontece

fasequandoraioo que acontece
colapso−200 a 0 ms3 000 → 30 kmo núcleo de ferro perde pressão e cai a ~0,25 c
rebotet = 0~10 kma matéria nuclear endurece e o núcleo interno rebate
choque imediato0 – 5 ms10 → 100 kmnasce no ponto sônico e corre para fora
surto de νe~5 ms~100 km~1053 erg/s ao furar a neutrinosfera
estagnação~20 ms~150 kmvira um choque de acreção parado
aquecimento por ν0,1 – 1 s100 – 200 kma região de ganho recebe alguns por cento da luminosidade
revivescimento~0,3 s~200 kmo choque volta a avançar: a estrela explode
propagação1 s – horas10³ → 10⁶ kmatravessa o manto e o envelope

O orçamento de energia

A ligação gravitacional liberada é de 3×1053 erg. Dela, 99% sai em neutrinos, e só ~1051 erg viram energia cinética da explosão.

A supernova é, antes de tudo, um evento de neutrinos. A luz é o troco.

Antes do quadro: um dia de queima de silício monta o núcleo de ferro de ~1,4 M☉. Durante a queda, acima de 1012 g/cm³ os νe ficam aprisionados, e o rebote se dá em 2,7×1014 g/cm³.

Tempos do mecanismo atrasado de Bethe & Wilson (1985). Os raios variam com o progenitor; estes são típicos de ~15 M☉.

Visto de fora

A explosão, o remanescente e o pulsar

O que o quadro anterior descreve por dentro, visto por um telescópio: a estrela se acende, a onda de choque rompe a superfície, os detritos se expandem — e no centro fica a estrela de nêutrons, agora um pulsar, com sua nebulosa de vento.

rompimento do choqueremanescentepulsar + nebulosa

Animação artística · NASA’s Goddard Space Flight Center Conceptual Image Lab (animação: Jonathan North) · SVS 20413 · domínio público. Os neutrinos saíram horas antes do primeiro clarão.

O ponto delicado do mecanismo

O choque estagna, e precisa ser revivido

O choque imediato não explode a estrela. Ele gasta toda a energia antes de sair.

Fotodesintegração

Quebrar ferro em núcleons custa 8,8 MeV por núcleon. Atravessar 0,1 M☉ de ferro consome ~1,7×1051 erg, da ordem de toda a energia do choque.

Perda por neutrinos

Ao cruzar a neutrinosfera, a matéria recém-chocada fica transparente e despeja o surto de neutronização. Mais energia embora.

Em ~20 ms ele para em ~150 km: vira um choque de acreção estacionário.

O que o revive

Entre a neutrinosfera e o choque há a região de ganho, onde a absorção de νe e ν̄e supera a emissão. Alguns por cento da luminosidade depositados ali bastam para empurrar o choque de volta.

νe + n → p + e−  ·  ν̄e + p → n + e+o aquecimento que reacende a explosão

Só que o depósito é marginal: em simetria esférica quase nunca basta. O que fecha a conta é a convecção e a SASI, que seguram a matéria mais tempo na região de ganho.

Por isso o problema só se resolveu em 3D, e por isso cada progenitor explode num instante diferente.

Animação · o mecanismo atrasado

Os neutrinos reacendem o choque

Esquema, não simulação: raios e tempos típicos de uma estrela de ~15 M☉ (os da tabela de fases), mecanismo de Bethe & Wilson (1985). Violeta: neutrinos saindo da neutrinosfera; laranja: os que depositam energia na região de ganho.

Astrofísica · Woosley 1993

Colapsares: quando a estrela não consegue explodir

Estrela Wolf-Rayet WR 124 vista pelo JWSTNASA, ESA, CSA, STScI, Webb ERO · CC BY 4.0

Uma estrela Wolf–Rayet de ~30 M☉, girando depressa, perdeu o envelope de hidrogênio.

  • O núcleo de ferro colapsa e o choque não reverte: forma-se um buraco negro de ~2–3 M☉.
  • O envelope tem momento angular demais para cair direto: forma-se um disco de acreção a poucos rs.
  • Acreção de 0,01–1 M☉/s por dezenas de segundos → jatos relativísticos que furam a estrela.

WR 124, fotografada pelo JWST em 2023: o tipo de estrela que pode terminar assim.

MacFadyen & Woosley 1999 · Popham, Woosley & Fryer 1999

Um motor resfriado por neutrinos

jato relativístico → GRB longo ν, ν̄ ~10⁵² erg/s envelope em rotação caindo buraco negro · 2–3 M☉ disco: T ~ MeV, ρ ~ 10¹⁰⁻¹² g/cm³

No disco interno, a matéria é tão quente e densa que fótons ficam presos. Quem leva o calor embora são os neutrinos: é um NDAF (neutrino-dominated accretion flow).

Esquema de um surto de raios gamaNASA/GSFC/ICRAR · DP

E esses neutrinos são emitidos a poucos rs de um buraco negro em rotação, onde a geometria é Kerr, não Minkowski.

Onde os neutrinos nascem

A emissão acontece dentro do poço

fonteraio de emissãors/REemitida/E∞
Sol, núcleo~0,2 R☉2×10⁻⁵1,00001
proto-estrela de nêutrons, ~1 sneutrinosfera ≈ 30 km0,141,08
estrela de nêutrons, tardia≈ 12 km0,341,24
disco de colapsar, ISCO (Schwarzschild)3 rs, em órbita0,331,41
disco em torno de Kerr rápido< 3 rs> 0,5> 1,4 · + Doppler

A energia que o DUNE mede é E∞. A energia que entra no potencial MSW, nas colisões e nas conversões coletivas é a local — até 40% maior.

Os raios saem curvados: a neutrinosfera parece maior, e a distribuição angular dos neutrinos que se cruzam acima dela muda.

No disco, a razão é ut = (1 − 3M/r)−1/2: redshift gravitacional e transversal juntos. O Doppler do movimento orbital soma ou subtrai conforme a direção.

Dashboard · Swami, Lochan & Dixit 2020

Uma lente gravitacional pesa o neutrino

interativo
ordenamento normalinvertido

Fonte a 10 kpc, lente a meio caminho. Dois caminhos, b₊ e b₋. A fase comum, ~m²L/E, é enorme e se perde em qualquer resolução de energia. A diferença entre caminhos sobrevive:

ΔΦk = mk2 Δb24E (1rA + 1rB)

Cada autoestado de massa faz sua própria franja. Mude a massa do mais leve: o padrão muda, e o ordenamento também deixa marca.

Lente pontual, campo fraco, sem matéria; amplitudes ∝ √|μ±|.

A fronteira

O que a gravidade pode nos contar

Massa absoluta

Interferência entre caminhos lenteados é sensível a mk² e ao ordenamento (Fornengo et al. 1997; Swami et al. 2020).

Sabor perto da fonte

MSW e conversões coletivas em grandezas locais; raios curvados mudam o “halo” e as instabilidades rápidas de sabor (Cherry et al. 2012).

Formação de buraco negro

O sinal de neutrinos de uma supernova que vira buraco negro é cortado abruptamente: um relógio para medir tempos de voo e massas (Beacom, Boyd & Mezzacappa 2001).

Nucleossíntese

Em discos de colapsar, o espectro de ν e ν̄ que fixa Ye é deslocado e focalizado pela RG — muda a produção de elementos pesados (Caballero, McLaughlin & Surman 2012).

Princípio de equivalência

Se sabores diferentes sentissem a gravidade de forma diferente, a oscilação ganharia um termo ∝ ΔγΦE (Gasperini 1988; Halprin & Leung 1991).

Descoerência

Pacotes de onda de massas diferentes se separam; em campos fortes, atrasos de Shapiro e desvios também dependem de mk.

Deep Underground Neutrino Experiment

DUNE: 1 300 km de Fermilab a Dakota do Sul

Fermilab Illinois · feixe LBNF 1,2 → 2,4 MW SURF Dakota do Sul 1,5 km 1 300 km pela crosta profundidade máxima do feixe ≈ 33 km rs⊕/R⊕ ≈ 1,4 × 10⁻⁹ · para o feixe, o espaço-tempo é plano

Detector distante: 4 módulos de ~17 kt de argônio líquido (TPCs), a 1,5 km de profundidade. ProtoDUNE, no CERN, é o protótipo em escala real.

Interior do ProtoDUNEMark Benecke · CC BY-SA 4.0

Metas: δCP, ordenamento, octante — e neutrinos de supernova.

Dashboard · aparecimento de νe no DUNE

CP e ordenamento no mesmo gráfico

interativo
νμ → νeν̄μ → ν̄eδ = 0, 90°, 180°, 270°

L = 1 285 km, crosta com ρ = 2,85 g/cm³. Expansão de Cervera et al. (2000) em θ₁₃ e Δm²₂₁/Δm²₃₁.

O efeito de matéria separa ν de ν̄ conforme o ordenamento; δCP desloca e deforma o pico.

Supernova na Galáxia

O DUNE é único para νₑ (νₑ + ⁴⁰Ar → e⁻ + ⁴⁰K*): milhares de eventos para uma SN a 10 kpc, com o pico de neutronização e, se houver, o corte da formação de um buraco negro.

Uma rede de observatórios

Ouvidos abertos para o próximo colapso

Esquema do Hyper-KamiokandeHyper-K Collab. · CC BY 3.0
Hyper-Kamiokande — 260 kt de água, ~2028. Milhares de ν̄ₑ de uma SN galáctica.
Esquema do JUNOJUNO Collab. · CC BY 4.0
JUNO — 20 kt de cintilador em Jiangmen, operando desde 2025. Ordenamento por reatores a 53 km.
IceCube Lab à noiteJohn Hardin · CC BY 4.0
IceCube — 1 km³ de gelo no Polo Sul. TXS 0506+056 (2017), NGC 1068, o plano galáctico.
Esquema do IceCubeIceCube Collab. · CC BY 4.0
O detector: 5 160 módulos ópticos entre 1,45 e 2,45 km de profundidade. E o KM3NeT, no Mediterrâneo, viu ~220 PeV (2025).

Onde as ressonâncias moram

Duas densidades, dois encontros

A estrela oferece todas as densidades entre 1014 g/cm³ no núcleo e quase nada no envelope. Cada ressonância escolhe a sua.

ρres = Δm² cos 2θ · mN / (2√2 GF E Ye)a mesma condição, com o Δm² e o θ de cada par
ressonânciaΔm²ρ a 20 MeV
H, θ₁₃2,5×10⁻³ eV²1,6×10³ g/cm³
L, θ₁₂7,5×10⁻⁵ eV²19 g/cm³

As duas ficam no envelope, não no núcleo: a ressonância H está a dezenas de milhares de quilômetros do centro, e a L ainda mais longe.

Só uma delas encontra o choque

A frente de choque leva segundos para varrer o envelope. Quando ela passa por 1,6×10³ g/cm³, cruza a ressonância H. Quando chega aos 19 g/cm³ da L, já está fraca e difusa.

Por isso todo o resto desta palestra é sobre a H.

Ye = 0,5. A densidade escala com 1/E: a 5 MeV a ressonância H está em 6,3×10³ g/cm³, e a 60 MeV em 5,3×10².

A ponte para a Parte III · M15-7b

A frente varre o envelope e cruza a ressonância H

Revivido, o choque corre para fora a ~1,6×104 km/s, varrendo o envelope.

A ressonância MSW-H não mora num raio: mora numa densidade.

ρres ≈ 1,6×10³ g/cm³ a 20 MeV · 6,3×10³ a 5 MeV · 5,3×10² a 60 MeV

Como o choque comprime e empurra o envelope, o raio onde essa densidade vive corre para dentro enquanto o choque corre para fora. Os dois vão se encontrar.

após o reboteraio do choqueraio da ressonância
3,0 s35 011 km34 933 km
10,0 s149 106 km12 471 km

Em t ≈ 3 s eles coincidem

78 km de diferença em 35 mil, ou 0,2%. Durante uma janela de poucos segundos, a frente de choque está em cima da ressonância, e é ali que o sabor do neutrino é decidido.

Perfis derivados de M15-7b, Garching CCSN Archive (A. Wongwathanarat), medianas angulares.

III

Parte três · resultados

GHOST

Quais estruturas de densidade de uma supernova mudam o sabor que chega ao DUNE — e quanto custa ignorar a única que importa: a frente de choque na ressonância MSW.

propagador de Chebyshevressonância Hfrente de choque12 878 raiosDUNE

O programa

GHOST: oscilação de sabor sem atalhos

H(r) = 12E U diag(0, Δm²₂₁, Δm²₃₁) U† + diag(√2 GF Yeρ(r)/mu, 0, 0)três sabores, com fase CP, ao longo de cada raio
|ψ(r+Δr)⟩ = e−iHΔr |ψ(r)⟩ ≈ Σk ck Tk(H̃) |ψ⟩expansão de Chebyshev · limites espectrais rigorosos · fatias bissectadas

Núcleo em C (fork do DAEDALUS, código de caminhadas quânticas em grafos meu e do Prof. Edgard Amorim). O hamiltoniano complexo roda num mergulho real 2n×2n; exposto como uma FlavorTransformation do SNEWPY, o resto da cadeia não muda.

validaçãoresultado
contra NuOscProbExact (método independente)2,2×10⁻¹⁴ em 320 casos
3 sabores + δCP em matéria, contra expm7,2×10⁻¹⁵
envelope ρ ∝ r⁻³: Pee contra sin²θ₁₃0,0223635 × 0,0223608
espectro DUNE, 200 energias × 213 ms

Da Parte II para cá

Na trajetória radial, os termos gravitacionais da fase se cancelam (Fornengo et al.). O que decide o sabor que sai da estrela é a estrutura de densidade que o neutrino atravessa.

O método

Por que Chebyshev

|ψ(x+Δx)⟩ = e−iHΔx |ψ(x)⟩o problema: aplicar a exponencial, fatia por fatia do perfil
e−iHΔx ≈ Σk ck Tk(H̃),   ck ∝ (−i)k Jk(λΔx)polinômios de Chebyshev em H; coeficientes = funções de Bessel
10−010−410−810−1210−16010203040506070 k ≈ λΔx = 30 precisão de máquina ordem k |ck| = |Jk(λΔx)|

1 · Precisão garantida

Os coeficientes caem super-exponencialmente quando a ordem passa de ~λΔx (λ: raio espectral). Com limites espectrais rigorosos, o GHOST sabe quantos termos usar para chegar à precisão de máquina — daí os 2,2×10⁻¹⁴ contra o NuOscProbExact.

2 · Passos grandes

Cada fatia de densidade constante é propagada de uma vez, mesmo cobrindo muitos Losc. Um Runge–Kutta pediria passos menores que Losc e acumularia erro e perda de unitariedade em milhares de km.

3 · Sem diagonalizar

Só produtos matriz × vetor. A norma se conserva no nível do arredondamento.

4 · Qualquer H hermitiano

O mesmo código faz 2 ou 3 sabores, fase CP, estéreis e, por trajetórias quânticas, decoerência. Massa e matéria entram como “auto-laços” na diagonal; o H complexo, por um mergulho real 2n×2n.

Os dados · Garching Core-Collapse Supernova Archive

Seis supergigantes azuis, explodidas em 3D

Modelos de A. Wongwathanarat e H.-Th. Janka feitos para a SN 1987A, cuja progenitora, Sanduleak −69 202, era uma supergigante azul — o caso atípico que a tornou famosa.

modeloprogenitorareferência
M15-7bfusão binária (Menon & Heger)Utrobin+ 2021
W16-3estrela únicaUtrobin+ 2019
W18-3estrela únicaUtrobin+ 2019
W18r-2estrela únicaUtrobin+ 2019
W18x-2estrela únicaUtrobin+ 2019
W20-5estrela únicaUtrobin+ 2019

Janka recomendou deixar de fora B15-1 e N20-4 (envelope colado à mão num núcleo de hélio). O M15-7b reproduz a cor e a luminosidade de Sanduleak e a curva de luz da SN 1987A.

O que simulam

Explosão guiada por neutrinos em 3D (PROMETHEUS-HOTB): do rebote, passando pelo revivescimento do choque, até muito depois do rompimento na superfície — com a mistura de elementos e o ⁵⁶Ni. As curvas de luz (CRAB) são comparadas com a SN 1987A.

O que recebemos

Instantâneos 3D numa grade Yin-Yang: 2 × 137 × 47 direções × 2400 zonas radiais = 12 878 raios, com densidade, Yₑ, temperatura, velocidade e composição. Épocas de ~0,3 s a ~10 s após o rebote — a janela em que o choque cruza a ressonância H.

Azul, não vermelha — e por que isso importa

A próxima supernova galáctica será quase certamente uma supergigante vermelha. A banda (t, E) onde o efeito vive fica dentro do núcleo de hélio, que não sabe a cor do envelope; Janka acha que o resultado se transfere. É um argumento, ainda não um cálculo.

Dados: Garching CCSN Archive, cortesia de H.-Th. Janka e A. Wongwathanarat (MPA). Wongwathanarat, Müller & Janka, A&A 577, A48 (2015); Utrobin et al., A&A 624, A116 (2019); ApJ 914, 4 (2021).

Contexto · o diagrama de Hertzsprung–Russell

Supergigantes azuis e vermelhas

Diagrama de Hertzsprung–Russell ESO · CC BY 4.0 · marcações nossas

Estrelas de mais de ~8 M☉ terminam a vida no topo do diagrama, como supergigantes. A cor diz o tamanho do envelope de hidrogênio:

azulvermelha
exemploSanduleak −69 202Betelgeuse
temperatura~16 000 K~3 600 K
raio~50 R☉~800 R☉
luminosidade~10⁵ L☉~10⁵ L☉

A SN 1987A foi a exceção: uma supergigante azul, compacta. Os seis modelos de Garching foram feitos para ela. A maioria das supernovas de colapso — e provavelmente a próxima na Galáxia — vem de supergigantes vermelhas.

Para o nosso efeito, o que importa é o núcleo de hélio, que é parecido nas duas: o envelope fica muito além da ressonância H.

O problema

Uma onda de choque cruza a ressonância

Autovalores em matéria perto da ressonância
Na ressonância H os dois autoestados de matéria quase se tocam.
Probabilidade de cruzamento contra a largura da transição
Cruzar devagar: PH = 0. Cruzar uma descontinuidade: PH → 1.

Nos primeiros segundos após o rebote, a frente de choque está sobre a ressonância H. O que decide o sabor que o DUNE mede é a forma de uma onda de choque.

ordenamentoPee adiabático
normal0,022
invertido0,30

Um fator 13 na sobrevivência de νₑ — e argônio conta justamente νₑ.

A lacuna

Três etapas, e só duas amadureceram

1 · Hidrodinâmica

Modelos 3D entregam fluxos resolvidos em tempo e ângulo.

2 · Transformação de sabor — esta etapa

No SNEWPY 1.5.1, para MSW padrão, só dois números: PH = 0 e PH = 1. Nenhuma das dez classes depende do tempo após o rebote.

3 · Detector

SNOwGLoBES converte fluxos em taxas de eventos.

“the shock front is steepened artificially to reintroduce the physical requirement of a density discontinuity which is lost in hydrodynamic simulations”
Barger, Huber & Marfatia, 2005

Tomàs et al. (2004) já afiavam a frente à mão. Vinte anos depois, a correção sumiu: trabalhos recentes passam 24 modelos 3D por uma constante adiabática.

O que a citação quer dizer

Afiar a frente: devolver o degrau

“the shock front is steepened artificially to reintroduce the physical requirement of a density discontinuity which is lost in hydrodynamic simulations”
Barger, Huber & Marfatia, 2005
células da grade (~centenas de km cada) ressonância H densidade simulação: rampa de ~2 células natureza: degrau (cm) 3,5–4,7 L_osc 1 L_osc

1 · Na natureza: um degrau

A densidade salta numa espessura de centímetros. Para um neutrino que oscila em dezenas de km, é uma descontinuidade perfeita.

2 · Na simulação: uma rampa

Shock capturing: viscosidade numérica espalha o choque por ~1,6–1,7 células. Posição e força certas; largura definida pela grade, não pela física.

3 · A hidro não liga; o neutrino sim

A conservação através do choque não depende da largura. O MSW depende só dela: γ ∝ largura / Losc. Rampa: γ ≈ 5, PH ≈ 0. Degrau: γ ≈ 0,01, PH até ~0,85.

4 · O remédio: afiar à mão

Localiza-se a frente e troca-se a rampa por um degrau, com as mesmas densidades dos dois lados. “Artificial” devolve uma propriedade física que a grade destruiu.

A simulação acerta onde está o choque — mas não sabe quão abrupto ele é. E o neutrino só se importa com isso.

A régua do critério

Adiabaticidade, e o comprimento que mede tudo

Probabilidade de salto de Landau-Zener contra a adiabaticidade
PH contra o parâmetro de adiabaticidade: o GHOST (círculos) sobre o perfil exponencial exato e sobre a fórmula de Landau–Zener. Abaixo, o desvio relativo a cada um.

Na ressonância, os dois autoestados de matéria quase se tocam. Se o neutrino atravessa devagar, acompanha o autoestado e PH = 0. Se atravessa depressa, salta, e PH → 1.

“Devagar” e “depressa” se medem contra um único comprimento, o de oscilação na ressonância:

Losc = 4πE / (Δm² sen 2θ₁₃)na ressonância H, a 20 MeV: 67,6 km

É esta a régua das próximas laminas

O critério de que uma estrutura só perturba a conversão se for mais curta que Losc é medido nessa unidade. E a largura de frente gravada em M15-7b, 284 km, são exatamente 4,2 Losc.

Conclusão 1 · o critério

O que a ressonância consegue ver

Resposta da conversão ao comprimento de onda da flutuação
Vazamento induzido contra o comprimento de onda da flutuação: a resposta morre acima de Losc na ressonância.

Uma estrutura só perturba a conversão se for mais curta que Losc na ressonância. Abaixo disso, o efeito cresce com o quadrado do contraste — medido como potência 2,02 ± 0,03 — e satura em 8%.

estruturacontrasteescala < Losc?veredito
turbulência7×10⁻⁴✓111× abaixo da saturação
convecção, SASI𝒪(1)✗ grande demaisnada
frente de choque𝒪(1)✓ descontinuidadesaturada

Mas numa simulação…

A frente não tem largura física

Perfis de densidade ao longo de raios individuais e a frente de perto
Cada raio cruza a ressonância de forma abrupta; a média angular, não. À direita: a frente como gravada e no limite físico.

O choque real tem centímetros. O arquivo guarda a largura do esquema numérico.

modelo (Garching)largura (Losc)zonas
M15-7b4,201,67
W16-33,811,65
W18-33,521,64
W18r-23,761,63
W18x-24,671,65
W20-54,221,65

Todos acima do limiar ≃ 3 Losc: propagar o arquivo como vem devolve o adiabático. Um nulo produzido pela resolução.

Dashboard · o painel do GHOST

O choque alcança a ressonância em t ≈ 3 s

interativo · M15-7b

Conclusão 2 · o custo

Restaurar a frente remove metade de PH

Distribuição de P_H em 12 878 linhas de visada e comparação com a forma fechada
Todo o céu de M15-7b: 12 878 raios, cada um propagado duas vezes.

0,44–0,76

ΔPH absoluto, seis progenitores, 5 a 100 MeV (mediana 0,56)

O arquivo como gravado devolve o limite adiabático em 99,9% dos raios. Com a frente restaurada, o espalhamento (d.p. 0,32) é de onde uma supernova é sorteada.

A forma fechada acompanha raio a raio: Pearson 0,9987, sem parâmetro livre.

Conclusão 3 · no detector

Alguns por cento, com sinal que depende da fonte

família de modelosviés na contagem CC de νₑ
Nakazato−4,0 a −4,2%
Garching−3,9 e −4,4%
Sukhbold−2,9%
Fornax 2022+1,3 e +1,4%

SNOwGLoBES, argônio 40 kt a 10 kpc.

Um viés de sinal fixo seria absorvido num fator de correção. Um cujo sinal segue a hierarquia de sabores da fonte não é — e fica degenerado com as grandezas espectrais que se quer extrair.

Sobrevive nos dois ordenamentos, por razões diferentes: −4,1% no normal, −5,4% no invertido. Não dá para evitar o sistemático escolhendo um ordenamento.

Conclusão 4 · onde procurar

O erro vive numa banda, em forma fechada

Mapa do erro no plano tempo-energia
Tratar a frente como constante erra por um fator de até 13,7 numa banda de (t, E) que fecha em t ≃ 4 s.

O erro não está espalhado: ele ocupa uma banda no plano tempo-energia, e a banda tem forma fechada.

Ela sai do perfil de densidade pré-supernova, dados o raio do choque e a compressão. Sem nenhum cálculo de sabor.

E ela fecha: passado t ≃ 4 s, o choque já deixou a região de densidade que a ressonância H ocupa nas energias observáveis.

Conclusão 4 · a armadilha

Cada progenitor tem a sua banda

Bandas de energia afetadas por progenitor
Cinco progenitores irmãos num mesmo instante: de 1,4 a 61,6 MeV, sem nenhuma energia comum a todos.

Cinco progenitores irmãos, no mesmo instante, cobrem de 1,4 a 61,6 MeV. E nenhuma energia cai dentro de todas as cinco bandas.

A consequência prática

Comparar modelos numa energia fixa devolve um falso nulo: em cada modelo você estará fora da banda de algum outro.

Caímos nessa armadilha antes de medi-la.

A banda depende da estrutura pré-supernova de cada estrela, que difere entre progenitores mesmo de mesma massa inicial.

Com honestidade

O que isto resolve e o que não resolve

Três afirmações

  • Um critério com número: a resposta se extingue acima de ≃ 3 Losc. “Afiar a frente à mão” vira uma condição verificável.
  • O custo: 0,44–0,76 em PH e alguns por cento na contagem em argônio, com sinal dado pela fonte.
  • Onde olhar: a banda em (t, E), em forma fechada, a partir da estrutura pré-supernova.

Limites

  • As escalas que agem não estão em modelo nenhum: as grades não resolvem nada abaixo de 4,7 Losc. A amplitude da turbulência é extrapolada.
  • Só supergigantes azuis (seis modelos de Garching).
  • Ainda não é um observável: poucos σ a 10 kpc, com escala 1/d.

R. C. R. de Lima, Which density structures affect supernova neutrino flavour conversion, and the shock front at the MSW resonance — em preparação (2026).

Síntese

Quatro coisas para levar para casa

1

Oscilação de sabor é interferência de fases. A fase é ∫pμdxμ — e isso vale em qualquer geometria.

2

Supernovas e colapsares emitem neutrinos a poucos rs. Ali, redshift, desvio e grandezas locais não são correções: são a física.

3

A gravidade não só atrapalha: com vários caminhos, ela mede mk². DUNE e a rede SNEWS estão prontos para a próxima supernova galáctica.

4

Numa supernova, só a frente de choque passa no critério da ressonância — e as simulações a guardam larga demais. Restaurá-la muda PH em 0,44–0,76 e a contagem no DUNE em alguns por cento.

Referências

Para ir além

Premissas

W. Pauli, carta de 4/12/1930

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B. Pontecorvo, Sov. Phys. JETP 26, 984 (1968)

Z. Maki, M. Nakagawa, S. Sakata, PTP 28, 870 (1962)

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DONUT, PLB 504, 218 (2001)

NuFIT 6.0, JHEP 12, 216 (2024)

KATRIN, Science 388, 180 (2025)

Parte I

A. Einstein, Sitzungsber. Preuss. Akad. 844 (1915)

K. Schwarzschild, Sitzungsber. Preuss. Akad. 189 (1916)

F. Dyson, A. Eddington, C. Davidson, Phil. Trans. A 220, 291 (1920)

R. Pound, G. Rebka, PRL 4, 337 (1960)

R. Hulse, J. Taylor, ApJ 195, L51 (1975)

LIGO/Virgo, PRL 116, 061102 (2016)

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A. MacFadyen, S. Woosley, ApJ 524, 262 (1999)

R. Popham, S. Woosley, C. Fryer, ApJ 518, 356 (1999)

Parte II

K. Hirata et al., PRL 58, 1490 (1987)

R. Bionta et al., PRL 58, 1494 (1987)

L. Krauss, S. Tremaine, PRL 60, 176 (1988)

M. Longo, PRL 60, 173 (1988)

L. Stodolsky, Gen. Rel. Grav. 11, 391 (1979)

N. Fornengo, C. Giunti, C. W. Kim, J. Song, PRD 56, 1895 (1997)

C. Cardall, G. Fuller, PRD 55, 7960 (1997)

H. Swami, K. Lochan, K. Dixit, PRD 102, 024043 (2020)

M. Gasperini, PRD 38, 2635 (1988)

A. Halprin, C. Leung, PRL 67, 1833 (1991)

J. Beacom, R. Boyd, A. Mezzacappa, PRD 63, 073011 (2001)

A. Cervera et al., NPB 579, 17 (2000)

O. Caballero, G. McLaughlin, R. Surman, ApJ 745, 170 (2012)

J. Cherry et al., PRL 108, 261104 (2012)

DUNE FD TDR, arXiv:2002.03005 (2020)

Parte III

R. Schirato, G. Fuller, astro-ph/0205390 (2002)

G. Fogli et al., PRD 68, 033005 (2003)

R. Tomàs et al., JCAP 0409, 015 (2004)

V. Barger, P. Huber, D. Marfatia, PLB 617, 167 (2005)

A. Dighe, A. Smirnov, PRD 62, 033007 (2000)

J. Kneller, G. McLaughlin, K. Patton, J. Phys. G 40, 055002 (2013)

K. Patton, J. Kneller, G. McLaughlin, PRD 89, 073022 (2014)

A. Wongwathanarat, E. Müller, H.-T. Janka, A&A 577, A48 (2015)

A. Baxter et al. (SNEWPY), ApJ 925, 107 (2022)

M. Bustamante (NuOscProbExact), arXiv:1904.12391

DUNE, EPJC 81, 423 (2021)

R. C. R. de Lima, em preparação (2026)

Créditos das imagens

Fotos e figuras de uso livre

Albert Einstein — Ferdinand Schmutzer / Adam Cuerden · domínio público

Eclipse de 1919 — ESO/Landessternwarte Heidelberg-Königstuhl/F. W. Dyson, A. S. Eddington, & C. Davidson · CC BY 4.0

Karl Schwarzschild — autor desconhecido · domínio público

M87* — Event Horizon Telescope, uploader cropped and converted TIF to JPG · CC BY 4.0

Sgr A* — EHT Collaboration · CC BY 4.0

GW150914 — B. P. Abbott et al. (LIGO Scientific Collaboration and Virgo Collaboration) — full list… · CC BY 3.0

PSR B1913+16 — Inductiveload · domínio público

Nebulosa do Caranguejo — NASA, ESA, J. Hester and A. Loll (Arizona State University) · domínio público

SN 1987A — ESA/Hubble & NASA · CC BY 4.0

WR 124 (JWST) — NASA, ESA, CSA, STScI, Webb ERO Production Team · CC BY 4.0

Mecanismo de GRB — NASA/Goddard Space Flight Center/ICRAR. · domínio público

Ilustração de GRB — (Credit: NASA/CXC/M.Weiss) · domínio público

IceCube Lab — John Hardin · CC BY 4.0

Esquema do IceCube — Karen Andeen and Matthias Plum for the IceCube Collaboration · CC BY 4.0

Estrela de nêutrons (ilustração) — (Credit: CXC/M. Weiss) · domínio público

JUNO — JUNO Collaboration: Angel Abusleme, Thomas Adam, Shakeel Ahmad, Rizwan Ahmed,… · CC BY 4.0

Hyper-Kamiokande — Shota Izumiyama (Tokyo Inst. Tech.) for the Hyper-Kamiokande collaboration · CC BY 3.0

ProtoDUNE — Markbenecke · CC BY-SA 4.0

Animação da supernova (vídeo) — NASA's Goddard Space Flight Center Conceptual Image Lab (Jonathan North) · domínio público

Diagrama de Hertzsprung–Russell — ESO · CC BY 4.0

Figuras e painel do choque da Parte III — R. C. R. de Lima (GHOST); perfis derivados do Garching CCSN Archive (M15-7b, A. Wongwathanarat); os arquivos originais não são redistribuídos

Obrigado

Perguntas?

Slides e dashboards abertos em rafael-lima.pages.dev/talks

Notas